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João Costa

Radialista, jornalista e diretor de teatro, além de estudioso de assuntos ligados à Geopolítica. É repórter de Política do Paraíba.com.br e um dos apresentadores do programa Rádio Verdade, na Arapuan FM.

20 de setembro de 2020 - 20:14

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Fake News até no cangaço: volante assegurava ter matado Lampião para garantir promoção

Nos anos 1920, o chefe de Volante, tenente Optato Gueiros, converteu-se ao fundamentalismo evangélico; lia a Bíblia em inglês, pregava o tempo todo para seus comandados, propagava que não atirava para matar, mas jurou e alardeou ao mundo todo ter matado Lampião e seu corneteiro; sendo por isso promovido e acabou encerrando sua carreira como delegado de polícia e vendedor de garrafadas.

No volumoso livro “Lampião – a Raposa das Caatingas”, autoria de José Bezerra Lima Irmão. Em fevereiro de 1926, o capitão Virgulino Ferreira – Lampião, alimentava profundo desejo de vingar a morte do irmão Levino. Ao saber que as volantes dos tenentes Higino Belarmino e de Optato Gueiros que naquele momento chefiava o grupo dos famosos “Cabras de Nazaré”, estavam nas proximidades no seu encalço, resolveu montar uma emboscada.

As volantes em campo com mais de 50 homens seguiam pelo Arraial das Caraíbas quando se deu o entrevero. Lampião armou a emboscada dividindo por três o seu bando. Ele na liderança de um grupo, Manoel Pequeno com um subgrupo e Antônio Ferreira, como sempre no coice do bando, entrincheirou-se com seus comandados na retaguarda. Guiadas pelo famoso rastejador Badoque, as volantes seguiam rastros deixados de propósito por Lampião.

Nos primeiros disparos, três soldados foram fulminados e sete caíram feridos, inclusive o tenente Higino, que ordenou a retirada. Os cangaceiros já contavam vitória xingando os “macacos”, quando Optato Gueiros e os nazarenos, que vinham na retaguarda, abriram fogo de forma “atabalhoada”, a ponto de quase atingir outros companheiros, levando o tenente Higino gritar para Davi Jurubeba, outro nazareno indomável.

-“Davi, a força de Nazaré tá contra nóis?”

Optato Gueiros liderou a contraofensiva já contando com três baixas e feridos. E é de sua autoria curioso relato desse combate. Um corpo sem cabeça do grupo de cangaceiros foi encontrado E que o corpo encontrado era o de Lampião. “Simples assim!” Imediatamente, o tenente Gueiros ganhou as manchetes dos jornais Diário de Pernambuco e Jornal do Commércio, de Fortaleza. E promoção pelo feito de dar cabo ao temível facínora.

O próprio Optato telegrafou ao governador comunicando sua “proeza” de matar Lampião. Foram seus 15 minutos de fama, pois pouco tempo depois, Lampião fazia sua entrada triunfal em Juazeiro do Norte, atendendo convocação do padre Cícero e do deputado Floro Bartolomeu para combater a Coluna Prestes. Optato foi promovido e recebido com pompas de comandante militar combativo, em troca recebeu de Lampião o apelido de “corredor” – se Lampião ia para um lado, Optato Gueiros corria para o lado oposto.

O chefe de volante que não atirava para matar!

Mas há outra versão, bizarra, sobre a trajetória de Optato Gueiros. Entre 1928/30, um relato atribuído a Davi Jurubeba (também ex-volante) , Optato, um presbiteriano moderado, dado a pileques intermináveis, converteu-se ao fundamentalismo evangélico; lia a Bíblia em inglês, fazia sermões onde chegava e doutrinava sua volante. E mais: “como chefe de volante, não atirava para matar,” segundo Jurubeba.

- Na batalha contra Lampião, na fazenda Caraíbas, Optato recusou matar pessoas, atirava para o ar, só para espantar, mas disse aos meninos que matassem, se quisessem, pois ele não mataria ninguém”, foi o relato de Jurubeba.

Mais: “Optato fora um homem muito violento, que bebia em demasia anteriormente, e que matara o corneteiro de Lampião com um tiro na cabeça, e depois dera outro tiro no próprio Lampião, quando este fugia, chegando a transpassá-lo com uma bala de fuzil, ferindo-o nas costas”, corrigiu o mesmo Jurubeba.

Optato ainda “combateu” os jagunços liderados pelo beatos José Lourenço e Severino Tavares, nos episódios da repressão ao “Caldeirão”, um sítio criado em 1926 pelo Padre Cicero e gerenciado pelo beato paraibano Zé Lourenço. Para dissolver o “Caldeirão”, o governo usou tropas terrestres e, pela primeira vez na História do Brasil, ataque aéreo. Gueiros encerrou sua trajetória em 1940 como “Doutor Raiz” e delegado de polícia em Petrolina-PE, onde hoje há um batalhão especial da PM que leva o seu nome.

João Costa