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João Costa

Radialista, jornalista e diretor de teatro, além de estudioso de assuntos ligados à Geopolítica. É repórter de Política do Paraíba.com.br e um dos apresentadores do programa Rádio Verdade, na Arapuan FM.

25 de novembro de 2020 - 17:35

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Justiçamentos: Assassinato de homem negro na multinacional Carrefour teve até direção e plateia

Beto Freitas, de 40 anos, o homem negro espancado até a morte por seguranças da multinacional Carrefour, enseja, corretamente, a face do racismo estrutural existente no Brasil, mas prontamente negado pelos militares que mandam na governança e pelos vastos segmentos de extrema direita recentemente protagonistas da cena nacional. Mas há um detalhe no vídeo do espancamento e morte do negro de Porto Alegre, que revela o grau da barbárie do país: o crime foi dirigido e quinze pessoas assistiram “de camarote”, indiferentes, um assassinato.

No vídeo que se espalhou pelas redes sociais, aparece a fiscal da loja, Adriana Alves Dutra, atuando como uma “diretora de cena”, filmando tudo com o seu celular. Uma cena real, certamente “prazerosa” para os seguranças que atuam com se fossem atores do antigo “telequete Montila”. A plateia interage desempenhando seu real papel de personagens indiferentes. Algo como:

- Não é comigo nem com alguém da minha família, então foda-se!

Mas a cena do Brasil real que ganharia as redes sociais e o mundo, foi feita por outro “assistente” de direção, que filmava os assassinos e a fiscal do Carrefour, espécie de diretora macabra, que ainda tentou intimidar o cinegrafista amador ameaçando-o.

- Não faz isso (filmar) que eu te queimo na loja!

Terrível punição: o cinegrafista “independente” poderia ser proibido de voltar ao Carrefour, certamente um templo sagrado para o consumo e sacrifícios de clientes ou fiéis “indesejáveis”. O que o Brasil e o mundo assistiram depois, foi uma cena real de linchamento. Pelas redes sociais a extrema direita até relativizou o crime. “O negro devia ter dado o motivo”, logo o “justiçamento” é aceitável. Até âncoras de TV já fizeram elogios a justiçamentos em rede nacional, lembram?

Segundo Adriane Natal, pesquisadora e doutoranda em Sociologia pela USP, “quem lincha sabe que tem respaldo social para isso no Brasil. Quem está ali linchando sabe que não haverá depoimentos de testemunhas nem maiores investigações ou punições”. Esta pesquisadora fala com a cátedra de quem já analisou 589 casos de linchamentos, só na região de sua atuação, São Paulo.

A intolerância é a principal causa para linchamentos. Há um clima no País que empodera justiçamentos praticados por indivíduos do aparato de segurança, ou pela “plebe rude e ignara”. No caso de Porto Alegra, são seguranças terceirados – um é policial militar, claro – atores do filme de terror do Carrefour. A mídia não dá conta se a fiscal do supermercado que dirigiu a cena, foi indiciada como co-autora do assassinato e se está reservado para ela o diretora do reality show, nem se foi presa.

Este crime certamente não ficará impune, talvez pela repercussão internacional envolvendo uma multinacional que carrega o símbolo da França na sua logomarca. Faz lembrar o caso Marielle Franco. Em que até o mundo mineral sabe quem são seus algozes, mas que o Judiciário inteiro deve resolver. O caso sinaliza que está passando da hora de uma reação popular que seja capaz de devolver ao país sua normalidade institucional, ainda que isso custe sangue no asfalto.

João Costa


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