Estimado leitor do Portal Valentina, o preço da gasolina já alcança o patamar de R$ 7,00 por litro em vários postos de combustíveis em diversos municípios da Paraíba, refletindo os sérios impactos do aumento do preço internacional do barril de petróleo do tipo Brent após o início da Guerra no Oriente Médio, em 28 de fevereiro de 2026, bem como da escalada militar envolvendo Israel e Estados Unidos contra o Irã.

Esse contexto geopolítico de elevada incerteza no Golfo Pérsico, especialmente em torno do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas estratégicas do transporte marítimo de petróleo do mundo, tem provocado significativa volatilidade nos mercados internacionais do barril de petróleo. Como consequência, observa-se forte pressão sobre os preços dos combustíveis no Brasil.

Diante desse cenário internacional adverso, a elevação dos preços dos combustíveis e à variação cambial do dólar americano tendem a gerar efeitos inflacionários em cadeia, sobretudo sobre os custos de transporte e logística, impactando diretamente o preço final de bens e serviços. Como consequência, projeta-se um agravamento das pressões inflacionárias ao longo de 2026.

A intensificação da inflação no Brasil, por sua vez, tende a comprometer ainda mais o poder de compra das famílias brasileiras, já pressionadas por um elevado nível de inadimplência. Em um contexto de renda baixa, juros elevados e encarecimento do custo de vida, a capacidade de pagamento das famílias torna-se ainda mais fragilizada.

Segundo dados recentes do Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas no Brasil, divulgados pela Serasa Experian, 81,3 milhões de brasileiros estavam inadimplentes em janeiro de 2026, o que corresponde a 49,66% da população adulta. Trata-se de um contingente expressivo que evidencia a fragilidade financeira de quase metade dos adultos do país mais rico e mais populoso da América do Sul.

Esse quadro preocupante impõe desafios relevantes ao crescimento econômico, ao bem-estar social e à estabilidade do Sistema Financeiro Nacional (SFN), uma vez que elevados níveis de inadimplência tendem a reduzir a expansão do crédito, restringir o consumo das famílias e aumentar os riscos associados às operações financeiras.

A média nacional, contudo, oculta profundas disparidades regionais. Na região Norte, o estado do Amapá lidera o ranking nacional, com 66,95% da população adulta inadimplente. Em contraste, na região Sul, Santa Catarina apresenta a menor taxa do país, de 39,38%.

A diferença de 27,57 pontos percentuais entre esses dois estados evidencia que a inadimplência no Brasil não se restringe a um fenômeno conjuntural. Ao contrário, reflete desigualdades estruturais históricas associadas ao nível de renda, ao grau de formalização do mercado de trabalho, ao acesso a crédito com menores custos e à capacidade de geração de oportunidades econômicas nas diferentes regiões brasileiras.

Sob a perspectiva da composição das dívidas, 26,3% dos débitos estão concentrados em bancos e cartões de crédito, segundo dados da Serasa Experian. Esse indicador reforça que a elevada inadimplência das famílias brasileiras está fortemente associado ao crédito bancário de curto prazo, caracterizado por taxas de juros elevadas, especialmente nas modalidades de crédito rotativo do cartão.

Nesse contexto, o cartão de crédito, amplamente utilizado para financiar despesas correntes das famílias, frequentemente se transforma em um mecanismo de aprisionamento financeiro. Em ambientes marcados por juros elevados e renda per capita baixa, o uso recorrente dessa modalidade de crédito pode desencadear ciclos persistentes de inadimplência, comprometendo a renda futura das famílias e reduzindo sua capacidade de consumo e planejamento financeiro.

Outro aspecto particularmente relevante e que exige maior atenção das políticas públicas, refere-se ao perfil de gênero da inadimplência no Brasil. Em janeiro de 2026, 50,5% das pessoas inadimplentes eram mulheres, frente a 49,5% de homens, conforme dados da Serasa Experian.

Embora a diferença percentual seja relativamente pequena, ela possui significado econômico e social relevante, pois evidencia a maior vulnerabilidade financeira feminina em um contexto marcado por desigualdade salarial, maior incidência de informalidade no trabalho, dupla jornada e maior responsabilidade na gestão das despesas familiares.

Nesse cenário, muitas mulheres recorrem ao crédito, especialmente ao cartão, para garantir despesas essenciais do domicílio, como alimentação, medicamentos, educação dos filhos e serviços básicos. Em um ambiente caracterizado por juros elevados, crescimento econômico baixo e restrições de renda, esse comportamento, frequentemente motivado por necessidade e não por escolha, pode levar à inadimplência, ampliando desigualdades no acesso a oportunidades econômicas e financeiras.

Outro dado relevante apresentado pela Serasa Experian refere-se ao perfil etário dos inadimplentes. A maior parcela encontra-se na faixa entre 41 e 60 anos, representando 35,6% do total. Trata-se de um grupo que, em geral, se encontra no auge da vida produtiva e assume maiores responsabilidades familiares e financeiras.

Vale ressaltar que a elevada inadimplência nesse grupo etário tende a gerar efeitos socioeconômicos adversos, como redução do consumo de bens e serviços, menor capacidade de poupança, diminuição da formação de patrimônio e menor investimento em ativos financeiros, além de ampliar a pressão sobre políticas públicas de proteção social.

A elevada inadimplência no Brasil decorre de uma combinação de fatores estruturais e conjunturais, entre os quais se destacam as taxas de juros elevadas, o alto custo do crédito, a instabilidade e insuficiência da renda das famílias e as persistentes desigualdades regionais e sociais.

No contexto atual, os impactos econômicos da Guerra no Oriente Médio, sobretudo por meio da elevação dos preços internacionais do petróleo e da inflação associada ao aumento do preço de combustíveis, tendem a agravar ainda mais esse quadro ao longo de 2026.

Esses elementos, de forma interdependente, comprometem a capacidade de pagamento das famílias, especialmente das mulheres, e retroalimentam um ciclo de inadimplência, restrição ao consumo de bens e serviços, desaceleração econômica e exclusão financeira.

O avanço da participação feminina entre os inadimplentes, aliado à concentração do fenômeno em faixas etárias economicamente ativas, reforça a urgência da implementação de políticas públicas integradas, que envolvam Educação Financeira, redução das taxas de juros e promoção de crescimento econômico sustentado com geração de emprego formal.

Por fim, sem o enfrentamento dessas causas estruturais, a inadimplência continuará elevada, ou seja, um sério problema financeiro das famílias, um obstáculo relevante ao crescimento econômico do Brasil. O valor médio da dívida por pessoa inadimplente é de R$ 6.453,29 em janeiro de 2026, segundo a Serasa Experian.

O Brasil poderá, em breve, alcançar uma situação paradoxal, um país sul-americano e emergente possuir um número de inadimplentes equivalente à população de um país europeu e desenvolvido. A Alemanha conta com cerca de 83,5 milhões de habitantes, enquanto o Brasil já reúne 81,3 milhões de pessoas inadimplentes. A dimensão desse contingente evidencia que a inadimplência deixou de ser um problema individual e passou a representar um desafio socioeconômico de grande escala.

Atualmente, o Brasil figura entre as vinte maiores economias do mundo, ocupando a 11ª posição global em termos de Produto Interno Bruto (PIB) nominal, é um país-membro do Grupo dos Vinte (G20), do BRICS e do MERCOSUL, mas ainda enfrenta desafios significativos para transformar esse potencial econômico em prosperidade financeira ampla e sustentável para sua população adulta.

Referências:

SERASA EXPERIAN. Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas no Brasil: Janeiro de 2026. Disponível em: https://x.gd/WgfKN. Acesso em: 26 fev. 2026.

Paulo Galvão Júnior