O fenômeno do autismo é potencialmente evolutivo na sociedade contemporânea, e muito complexo, por ser essencialmente multifatorial e multifacetado, abarcando não apenas aspectos neurobiológicos, como socioculturais e ambientais. Neste sentido, a materialidade do corpo e psiquê do indivíduo, necessariamente é uma simbiose indissociável, inclusive para efeito da realização de estudos, pesquisas, acolhimentos, intervenções pedagógicas, clínicas, médicas, institucionais, que se pretendam eficientes e eficazes, principalmente para o tratamento de tão desafiador problema.

Pode até existirem concepções diferentes sobre a gênese, causas, fatores, implicações do autismo, metodologias para serem desenvolvidas para o seu tratamento. Todavia, nos parece salutar o que tem feito a comunidade científica nacional, sendo cada vez mais inventiva, criativa, inovadora neste complexo cenário do conhecimento, de modo mais evidente nas quatro últimas décadas. As diferenças de concepções sobre o autismo e suas implicações não têm refreado os avanços acerca da compreensão deste problema. Em minha percepção, tem servido para o próprio avanço do conhecimento do mencionado.

Bastante pertinente nestes últimos sessenta dias foram as iniciativas da TV Cultura, através do Programa Roda Viva, efetivado em 6 de abril de 2026, cujo entrevistado foi o Doutor em Neuropediatria, José Salomão Schwartzman, autor de diversos livros e há 40 anos trabalhando com o autismo; e em 27 de abril de 2026, a TV mencionada oportunizou também a titular sênior do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, e pioneira na articulação entre educação e psicanálise no Brasil, Maria Cristina Kupfer, abordando também o autismo. Ao realizar tais programas, a TV Cultura, via Programa Roda Viva, prestou um grande serviço à Nação Brasileira, ao assegurar o evidenciamento de tal temática, com a excelência das exposições dos cientistas citados. Foi, sem dúvida, uma relevante contribuição, muito rica de conhecimentos e saberes, e ao debate com especialistas, educadores e diversos profissionais para além da área médica e educação, diretamente envolvidos com o assunto.

Destaco aqui uma síntese das considerações fundamentais feitas pelo Dr. José Salomão Schwartzman:

O autismo é, basicamente, um distúrbio neurobiológico. Quanto a isso, não há a menor dúvida. Muito embora, exista muita gente que acredita ser algo relacional. (…) Eventualmente, de um trato inadequado no ambiente – uma “mãe geladeira”, ou mãe profundamente desatenta com seu filho – produziria situações e condições para emergência do autismo. O mundo não acredita mais nisso. A literatura é óbvia: considera-se que o autismo é um transtorno neurobiológico que tem algumas características. Fundamentalmente, para você dizer que alguém tem autismo, necessariamente, o indivíduo tem que ter: um transtorno na comunicação social; uma dificuldade no relacionamento interpessoal; a presença de comportamentos restritos; interesses restritos; movimentos involuntários; alterações sensoriais. O problema central do autismo é que todos protocolos que há hoje, são extremamente frouxos. Eles não definem, claramente, a que se propõem. E você não tem um marcador biológico para reconhecer. Outro aspecto decisivo ou relevante é que a carga genética é importante para o diagnóstico do autismo. Cada vez mais, reconhecemos que problemas ambientais, intraútero, podem desencadear o autismo. Destaco ainda que pouquíssimas pessoas têm acesso ao diagnóstico que são autistas. O diagnóstico do autismo não é do especialista. Absolutamente, uma coisa que é tão frequente, que é tão importante, tem que ser diagnosticada cedo. Quem tem que diagnosticar o autismo é o pediatra. Considero que o médico brasileiro não tem uma formação adequada, dentro do ponto de vista neurológico. Muito frequentemente, o médico formado no Brasil, conhece pouquíssima coisa sobre o autismo, como deficiência intelectual. Ressalto ainda que o autismo não é uma novidade. Vem sendo descrito há 80 anos. Como ele é entendido, quais seriam suas possíveis causas, com números frequentes de diagnósticos. Nossas crianças estão sendo extremamente prejudicadas por excesso de tela. Uma criança que fica 12 horas exposta à televisão, é óbvio que vai ter interferência na linguagem, que vai deixar sequelas duradouras. A Sociedade Americana de Pediatria recomenda que crianças abaixo de quatro anos não tenha nenhum acesso a telas, e que depois de cinco anos tenham acesso de no máximo uma hora, juntando todas as telas. O que a gente precisa perguntar é o que esta exposição excessiva às telas está causando no sistema nervoso de nossas crianças, não necessariamente só autistas. Cumpre-nos destacar, ainda, que os autistas possuem inteligência pontual acima do normal; memória imbatível; quando decoram uma coisa, decoram para a vida inteira; e têm habilidades que pessoas ditas normais não têm. É preciso que sejam incentivados no que eles têm de melhor. (SCHWARTZMAN, 2026)

As considerações formuladas por este autêntico cientista, possuem uma natureza e dinâmica, potencialmente, de natureza médica. Não é por tal fato que suas concepções deixam de ser importantes e extremamente úteis, principalmente para as mães atípicas e profissionais que trabalham com autistas por todo o País. Todas as suas formulações são valiosíssimas e fortalecedoras dos trabalhos efetivados pelos profissionais que lidam com os autistas.

A defesa da não estereotipia, estigmatização, preconceitos e não realização de processos de exclusão, bem como o reconhecimento das habilidades e potencialidades dos autistas fica explicitado nos conhecimentos elaborados por este neuropediatra. Há o evidenciamento na sua fala de grandes desafios a serem equacionados para o diagnóstico e tratamento dos autistas, ainda no Brasil. E isso, no nosso entendimento é uma responsabilidade não apenas do Estado, da comunidade científica nacional, e de todos os profissionais que lidam com os autistas.

Já para a doutora Maria Cristina Kupfer:

O autismo é a expressão de um conjunto de fatores, portanto é multifatorial. Os psicanalistas entendem que o primeiro fator diz respeito a questões neurobiológicas e do neurodesenvolvimento. Não podemos negar a materialidade de um corpo. Há questões importantes, portanto, constitucionais. Autismo é um modo de ser. A perspectiva neurobiológica coloca o autismo como uma doença incurável. É preciso deixar claro que nem todos os autistas têm problemas sensoriais. As crianças autistas, de acordo com os recursos que desenvolvemos através da Psicanálise, vão vivenciando uma aproximação. Mesmo aquelas muito comprometidas. É preciso deixar claro que pessoas autistas produzem, fazem arte, discutem cultura, e isso não deixa de ser, também, um efeito da Educação Inclusiva. É necessária a realização de práticas inclusivas, escuta abrangente, empática, sensível. Não há necessidade da viabilização de técnicas específicas direcionadas a crianças ou adolescentes autistas. A criança autista quer estar com os outros, mas não pode. Ela precisa tomar e se apropriar daquilo que está envolta dela. É o que a Psicanálise denomina de: os objetos de segurança. Aquilo que é do seu interesse específico. Deixo evidente, que no âmbito da escola, não existe a melhor abordagem para as crianças autistas, porque todas as abordagens têm limites e alcances. Estar na escola é terapêutico. Estar na escola é o lugar social da criança. Escola traz identificação. Escola traz a consciência do que a criança é. Isso é uma dimensão civilizatória. A escola é um espaço de heterogeneidade. Os professores precisam compreender porque os educandos denominados de ‘especiais’ estão na escola. Se crianças aprendem a ser tolerantes, a escola estará cumprindo o seu papel. Autistas precisam descobrir seus modos de estarem no mundo, cada um a sua maneira. Autismo não é uma doença, é um transtorno. E para tal, há possibilidades e dispositivos legais para acolher este indivíduo. O autista é parte da diversidade humana, não é um deficiente. (KUPFER, 2026)

Tais concepções, muito bem fundamentadas, deixam evidente que a percepção do autismo por parte da Psicanálise e dos psicanalistas não negligencia o aspecto neurobiológico, e incorpora também, fundamentalmente, questões das relações que se processam entre o autista e as pessoas que estão a sua volta, sejam os seus pais, professores, colegas de sala de aula, vizinhos, entre outros.

A dimensão social, a inclusão, o processo complexo de reeducação de tais setores, as conexões entre autistas e educação, são potencialmente relevantes e necessárias. Inclusive, para assegurar uma qualitativa condição de vida para os mencionados. Em que pesem as críticas quanto ao diagnóstico e tratamento de autistas por psicanalistas, a contribuição de tais setores continua sendo muito válida, decisiva e fundamental para todos os autistas no Brasil e no mundo. Em nossa percepção, estas diferenças entre concepção médica e a psicanalítica não se constitui em fator negativo. É assim mesmo que a Ciência se faz, é desenvolvida, e avança, também no campo deste complexo cenário do conhecimento, tanto no âmbito brasileiro como no exterior. O que há de mais relevante e fidedigno nas duas concepções pode, perfeitamente, ser levado em consideração no cotidiano por todos os profissionais que trabalham com autistas.

Objetivando a socialização de mais transparentes informações sobre a “Nosologia, etiologia e patogênese, critérios e diagnósticos do TEA”, em obra denominada: “Autismo, uma abordagem multiprofissional”, organizada por Flávio Aparecido de Almeida, passamos a ter uma compreensão do TEA, assim expressa:

O TEA é uma condição neurológica que afeta o desenvolvimento e o funcionamento social, comunicativo e comportamental de indivíduos. A classificação do TEA tem sido objeto de estudo e debate ao longo dos anos, buscando compreender a sua heterogeneidade e complexidade. A classificação mais amplamente utilizada é baseada nos critérios do DSM-5 – TR (APA, 2023) e na Classificação Internacional de Doenças (CID-11; OMS, 2021).

Os principais critérios incluem: déficits persistentes na comunicação e interação social, caracterizados por dificuldades na reciprocidade socioemocional e no estabelecimento de relacionamentos. Além disso, são observados padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades, como comportamentos estereotipados, adesão inflexível a rotinas, interesses restritos e sensibilidade alterada aos estímulos sensoriais. Esses sintomas devem estar presentes desde a infância, embora possam se manifestar de forma mais evidente à medida que as demandas sociais aumentam e impactam significativamente o funcionamento diário, especialmente nas áreas de socialização, comunicação e comportamento (APA, 2023).

A prevalência no TEA nos Estado Unidos está entre 1% e 2% da população, havendo similaridade entre as amostras de crianças e de adultos (APA, 2023). O levantamento realizado pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC) em crianças de 8 anos de idade mostrou um aumento na prevalência de TEA, com uma estimativa de 1 em cada 44 crianças afetadas em 2020 (Maenner el al., 2018). Além disso, destaca-se a prevalência do diagnóstico quatro vezes maior em homens na comparação com as mulheres (Baxter et al., 2015; Özerk & Cardinal, 2020).

Acredita-se que a predisposição genética desempenhe um papel significativo no desenvolvimento do autismo. A herdabilidade varia entre 37% e 90% com base em taxas associadas entre gêmeos (APA, 2023). Estudos sugerem que certas combinações de genes podem aumentar a probabilidade de uma pessoa desenvolver o transtorno (APA, 2023; Autism Spectrum Disorders Working Group of The Psychiatric Genomics Consortium (2017); Gaugler et al., 2014; Sanders et al., 2015). No entanto, ainda não foi identificado um único gene específico responsável pelo autismo. Influências ambientais também podem contribuir para o desenvolvimento do TEA, tais como a exposição a toxinas durante a gravidez (como o ácido valproico), complicações durante o parto, infecções durante a gestação ou exposição a certos medicamentos, prematuridade extrema e idade avançada dos pais (APA, 2023).

Alguns pesquisadores exploraram a possível relação entre disfunção no sistema imunológico e o TEA (Masi et al., 2017; Onore et al., 2012; Robinson-Agramonte et al., 2022). Os pesquisadores apontam uma possibilidade de que uma resposta imunológica anormal ou inflamação crônica podem desempenhar um papel no desenvolvimento do transtorno. Estudos de neuroimagem têm revelado diferenças estruturais e funcionais no cérebro de indivíduos com TEA e essas anormalidades podem estar relacionadas a alterações no desenvolvimento cerebral durante a gestação ou nos primeiros anos de vida (Ecker, 2017).

O estudo de Zilbovicius et al. (2006) revelou alterações no córtex pré-frontal e no sistema límbico em indivíduos com TEA, relacionadas a dificuldades cognitivas, emocionais e sociais. O córtex pré-frontal apresentou redução de volume, implicando em desafios de flexibilidade cognitiva e processamento de informações sociais complexas. O sistema límbico mostrou alterações estruturais e funcionais, afetando a expressão e o reconhecimento de emoções, bem como a regulação emocional. Esses achados contribuem para compreender as bases neurobiológicas do TEA.

A pesquisa de Amaral et al. (2008) investigou as características da neuroanatomia do TEA. Os principais achados incluem diferenças no tamanho e organização do cérebro, especialmente no córtex pré-frontal e no sistema límbico. Além disso, foram observadas alterações na organização celular do córtex cerebral, desregulação nas vias de comunicação entre diferentes regiões cerebrais e disfunção no sistema límbico (Amaral et al., 2008). O estudo de Donovan e Basson (2017) investigou a neuroanatomia do TEA como foco nos aspectos do desenvolvimento e foram encontradas alterações no tamanho do córtex pré-frontal e do sistema límbico, além de uma organização celular atípica nessas regiões. Essas alterações podem estar relacionadas às dificuldades sociais e de comunicação características do TEA: a desregulação das vias de comunicação entre diferentes regiões cerebrais pode influenciar o processamento de informações sociais e sensoriais e ainda o sistema límbico, envolvido no processamento emocional, também apresentou anormalidades (Donovan & Basson, 2017).

Haney (2015) discute o viés de gênero na avaliação e diagnóstico do autismo no DSM-5-TR. Aponta que o manual pode apresentar um viés de gênero na identificação e diagnóstico do autismo, favorecendo a identificação de características autistas em meninos em detrimento das meninas, já que os critérios diagnósticos podem ser mais adequados para identificar o autismo em homens, que geralmente apresentam características mais estereotipadas e visíveis do transtorno (Haney, 2015). Isso pode envolver uma compreensão mais ampla das manifestações do autismo em diferentes gêneros e a consideração de características específicas que podem ser mais prevalentes em mulheres autistas.

De forma parecida, Kreiser e White (2013) apontam o possível viés de diagnóstico ou características de apresentação diferentes entre meninos e meninas com TEA. Os autores levantam questões importantes sobre a possibilidade de um viés de diagnóstico e a necessidade de considerar as características de apresentação e fatores sociais/culturais ao avaliar e diagnosticar o TEA em meninas. (DE ALMEIDA, 2024, p. 12-15)

Tais informações, atestam a relevância das pesquisas e produção científica sobre o autismo; a complexidade de velhos e novos desafios sobre este problema; e a importância de tais formulações para nortear e fortalecer o trabalho de psicólogos; professores; supervisores, orientadores e gestores escolares; assistentes sociais; e suas relações com as crianças e adolescentes, e até adultos, homens e mulheres com TEA. Esses últimos, muito tardiamente diagnosticados, na maioria das vezes. O TEA, realmente, é multifatorial e possui múltiplas causas que o engendram e o desenvolvem.

Questiona-se: o TEA é um problema de ordem, fundamentalmente, neurobiológico? Impactos derivados do ambiente no qual a mulher grávida está inserida, sendo potencialmente nefastos a ela, não teriam repercussão no estado de saúde físico e mental do bebê? A pobreza acentuada, e as vezes a miséria absoluta, as nocivas desigualdades sociais existentes no Brasil, e a automedicação costumeiramente realizada por muitas mulheres gestantes, acima de tudo das camadas populares, não contribuiria para forjar o TEA? As violências as quais são vítimas milhares de mulheres brasileiras, cotidianamente, durante seus processos de gestação, também não contribuiriam, possivelmente, para a produção do TEA? Acreditamos que tais fatores não podem ser desprezados de modo algum.

Bastante esclarecedoras são também as considerações sistemáticas formuladas pela Doutora Mayra Gaiato, constituindo-se em abrangentes e atuais fontes de conhecimento, saberes e, de modo enfático, ensinamentos muito pertinentes para que tenhamos uma melhor compreensão sobre o TEA, assim delineadas:

Enrico é um garoto muito esperto e hoje está com quatro anos de idade. Aos dois anos, seus pais começaram a notar que ele apresentava comportamentos muito elaborados, acima dos esperados para sua idade, tais como planejar como colocar bancos para subir em gavetas e alcançar algo que queria no armário! E também mexer em todos os recursos de celulares! Porém, também apresentava atrasos. Enrico não falava e não apontava. Se virava sozinho para conseguir o que queria ou puxava as pessoas pelo braço para que pegassem para ele. Gostava muito de correr e o fazia de um lado para outro da sala, rindo. Não se interessava pelas brincadeiras nem pelos jogos que os pais tentavam fazer com ele. Gostava de brincar com letras, números e, em pouco tempo já reconhecia todos! Gostava de colocar todos no chão da sala e ficava bravo quando os pais tentavam entrar na sua “brincadeira”. Enrico apresenta TEA?

Quando uma criança chega ao consultório, não sabemos nada sobre ela. É uma caixinha de surpresas. Tudo que ela faz é importante para conhecermos e entendermos seu funcionamento. A família tem expectativas sobre as questões que são discutidas sobre o desenvolvimento dos filhos. Geralmente chegam encaminhados pelo pediatra, pela fonoaudióloga ou pela escola. Já houve desconfiança deles e/ou dos próprios pais sobre a criança apresentar transtorno do espectro do autismo.

O TEA, ou simplesmente autismo, é um transtorno do neurodesenvolvimento. Isso significa que algumas funções neurológicas não se desenvolvem como deveriam nas respectivas áreas cerebrais das pessoas acometidas por ele. É uma condição complexa, e muitos fatores contribuem para o risco.

Os sintomas também variam e, por isso, não encontramos correlação entre grandes amostras nas pesquisas. São muitas as disfunções neurológicas encontradas em pessoas com autismo. Esses sintomas aparecem quando as crianças ainda são pequenas. Precisam estar presentes antes dos três anos de idade.

O próprio nome – Transtorno do Espectro do Autismo – já nos dá uma ideia de amplitude e variedade. Assim como o espectro da cor é uma decomposição da cor branca, o do autismo também passa por uma variedade de sintomas nas áreas de comunicação social e de interesses restritos e estereotipados. Demonstraremos a seguir os comportamentos mais comuns em ambas as áreas.

As crianças diagnosticadas com o transtorno costumam apresentar déficits na interação com os seus familiares e colegas, que podem ocorrer das seguintes maneiras: 1. Não se interessam por coisas que as outras crianças propõem (brinquedos ou brincadeiras que não sejam do seu interesse). Por exemplo, enquanto as outras crianças brincam com peças de montar e planejam fazer um prédio, a criança com autismo usa as peças para enfileirar ou empilhar. 2. Apresentam dificuldade em se relacionar socialmente de forma adequada. Quando crianças, podem se virar de costas para os colegas, ficar fora das rodas de história na escola ou correndo nas festinhas infantis, enquanto seus colegas seguem os monitores, por exemplo. 3. Aproximação de uma maneira não natural, robotizada, “aprendida”, e fracassa nas conversas interpessoais, com dificuldade em iniciar ou responder a interações sociais. 4. Demonstrações de pouco interesse no que outra pessoa está dizendo ou sentindo. Por exemplo, quando alguém relata estar aborrecido com o trabalho, a pessoa com TEA pergunta sobre o tipo de serviço que ele faz e não sobre o sentimento que ele traz. 5. Integração pobre entre a comunicação verbal e a comunicação não verbal, contato visual e uma linguagem corporal. 6. Dificuldade de entender a linguagem não verbal das outras pessoas, tais como as expressões faciais, gestos, sinais com os olhos, cabeça e mãos. 7. Dificuldade em se adaptar a diferentes situações sociais, tais como dificuldade de dividir brinquedos, mudanças de brincadeiras, participar de brincadeiras imaginárias (casinha, por exemplo).

Mas você deve estar se perguntando: o que é uma forma “adequada” de interagir? A sociedade coloca alguns padrões “não ditos” que delineiam a maneira com a qual devemos nos portar uns com os outros. Para as pessoas com TEA, a dificuldade está em adivinhar essas regras. Elas podem parecer dar pouca importância para o que o outro está falando ou fazendo ou se envolver demais, de maneira que não entende sinais sociais de que aquela conversa está encerrada ou que já foi suficiente para o outro.

Além da área de comunicação apresentada nesse último tópico, há as características relacionadas aos interesses restritos e padrões repetitivos. As crianças diagnosticadas com o TEA podem apresentar: 1. Movimentos repetitivos ou estereotipados com objetos e/ou fala. Por exemplo, pegar um carrinho, virar e girar a rodinha repetidamente, em vez de brincar da forma esperada; pegar bonecos e jogá-los ou colocá-los na boca, em lugar de montar uma brincadeira criativa com eles. 2. Na fala, repetições de narração de filmes ou desenhos, falando sozinhos em uma linguagem “própria”, sem função de interação social. 3. Insistência em rotinas, rituais de comportamentos padronizados, fixação em temas e interesses restritos. Por exemplo, só falar de carros ou de um personagem, não se interessando por outros assuntos; só querer jogar o mesmo jogo no tablet. 4. Hiper ou hiporreação a estímulos do ambiente, como sons ou texturas. 5. Estereotipias motoras, movimentos repetitivos com o corpo ou com as mãos, tais como abanar as mãozinhas, pular ou rodar, bater as mãos, balançar objetos. 6. Extrema angústia com pequenas mudanças na rotina, como mudar o caminho de casa, por exemplo. Gostam de manter os mesmos costumes, entendem que o mundo “correto” é como eles aprenderam na primeira vez. Tentam manter o mesmo padrão, sempre. Se entendem que portas e gavetas devem ser fechadas, tentarão mantê-las desta maneira. 7. Forte apego a objetos, gastando muito tempo observando ou usando um mesmo brinquedo ou segurando, sempre que podem, algo que caiba nas mãos. Mesmo quando pedimos para escolher outro, não conseguem parar de se preocupar com aquele determinado. Nesses momentos, dificilmente a criança compartilha conosco o que está fazendo, não traz para nos mostrar e não nos olha com a intenção de ver se estamos vendo-a. 8. Sensibilidade a barulhos, cheiros, texturas de objetos ou extremo interesse em luzes, brilhos e determinados movimentos repetitivos, como objetos girando ou ventiladores, por exemplo. 9. Alteração na sensibilidade à dor. Algumas vezes, os pais descrevem quedas ou batidas em que crianças com TEA parecem não sentir dor.

Como cada indivíduo é único, as crianças com TEA podem apresentar nuances diversas dentro dessas características descritas anteriormente e não precisam apresentar todos os sintomas. Se uma dessas características (ou outras dessas áreas) traz prejuízos à criança, deve ser investigada imediatamente. Os prejuízos podem envolver déficits que farão com que a criança se exponha menos a situações com oportunidades de aprendizagem. Um pouco menos, a cada dia, pode trazer prejuízo grande com o passar dos meses e da idade.

Enrico, o garotinho apresentado no início deste capítulo, apresenta sinais de dificuldade em comunicação social e interesses restritos. Os sintomas são muito sutis quanto mais novas são as crianças, mas ele foi tratado desde cedo e, hoje, apresenta menos sintomas do espectro. (GAIATO, 2018. p. 18-22)

Ao abordar sintomas identificadores do TEA, o desenvolvimento infantil e os comportamentos esperados, a citada educadora e pesquisadora elucida aspectos decisivos e louváveis relativos ao comportamento de crianças autistas e não autistas, estabelecendo pistas, indicativos claros, facilitadores da relação, acima de tudo, das mães com as crianças aludidas, e destas com suas mães. São fartas as informações para pavimentar também o trabalho dos profissionais que lidam com autistas.

Para efeito de auxílio e cooperação, principalmente às mães atípicas, especialistas, professores, e demais setores que lidam diretamente, e de forma cotidiana, com os autistas, difundimos aqui, como fator extremamente necessário, a “Cartilha do Autista” (2ª edição), elaborada pela Secretaria da Pessoa com Deficiência do Governo do Distrito Federal, que traz, entre outros, os seguintes tópicos:

Diagnóstico e laudo; Lei Berenice Piana; Lei Fernando Cotta; Autismo no SUS; Tratamento por meio do plano de saúde; Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (CIPTEA); Direitos fundamentais da pessoa com autismo; Direitos específicos relacionados ao autista; Direito de locomoção; Auxílio LOAS/BPC; Redução de carga horária para os pais com filhos com TEA; Autista no concurso público; Lazer, meia-entrada e fila preferencial; Desconto em passagem aérea. O documento está disponível no link: https://x.gd/PPDyZ.

Com esta mesma intencionalidade e perspectiva, sugerimos aos estimados leitores(as) que, possivelmente, acessem as obras abaixo relacionadas para que tenham, realmente, informações complementares e imprescindíveis a compreensão do TEA, a saber:

7 livros sobre autismo para ler, conhecer e se aprofundar https://share.google/tDdR179pPY9iP5cSA
Como lidar com o autismo. Autora: Rosane Lowenthal https://x.gd/oPsZr
Análise do comportamento aplicada ao desenvolvimento atípico com ênfase em autismo. Organizador: Daniel Carvalho de Matos https://x.gd/x6OHw
Questionário de indicadores clínicos de risco para o desenvolvimento infantil: avaliação da sensibilidade para transtornos do espectro do autismo. Autores: Fernanda Prada Machado et al. https://x.gd/lj28J
Tecendo sons e palavras: oficina de Música Dirigida à Portadores de Distúrbios Graves. Autor: Pedro da Silva Guimarães https://x.gd/FX8YT
Maria Cristina Kupfer: Desvendando a mente infantil https://x.gd/0Yumr
Acompanhamento psicanalítico de crianças em instituições, escolas e grupos – APEGI. Autoras: Maria Cristina Kupfer e Leda Mariza Fischer Bernardino

Educação para o futuro. Autora: Maria Cristina Kupfer https://x.gd/fhkN9
Arthur, um autista no Século XIX. Autora: Maria Cristina Kupfer https://x.gd/hJyoJ
Transtornos do espectro do autismo. Autores: José Salomão Schwartzman e Ceres Alves de Araújo https://x.gd/XXIxZ
Cem dúvidas sobre o autismo. Autor: José Salomão Schwartzman https://x.gd/trdF8
Autismo Infantil. Autor: José Salomão Schwartzman https://x.gd/QPnku

Considerações finais

Sem a pretensão de ter dado conta de tão importante e complexo tema, compreende-se ainda, ser indispensável, que tenhamos o autismo e tudo que diz respeito ao mesmo, a exemplo dos problemas sensoriais vivenciados pelos autistas, como uma política de Estado, aprimorada evolutivamente, a cada dia, e que as campanhas governamentais, em todo o território nacional, e as matérias feitas pela imprensa nacional sobre o TEA, possam ser socializadas de modo mais sistemático, com maior durabilidade, intensidade.

Afinal, já existem mais de dois milhões de pessoas diagnosticadas com autismo no Brasil, de acordo com as pesquisas formuladas pelo IBGE. E este número não é maior, em nosso entendimento, devido às dificuldades imensas de acesso ao diagnóstico e tratamento multiprofissional especializado, vivenciados por centenas de indivíduos.

Os suportes, as redes de apoio, tratamento e proteção aos autistas precisam ser ampliadas, redimensionadas, modernizadas e fortalecidas, oportunizando real qualidade de vida aos autistas e familiares. Afinal, as famílias de autistas, como revelam inúmeras pesquisas, são profundamente impactas pelo TEA. E que os processos de estereotipia, estigmatizações, preconceitos, discriminações, contra os autistas e seus familiares, cessem de uma vez por todas.

A ciência jurídica e a legislação brasileira no campo educacional devem ser aprimoradas neste aspecto. Louve-se a evolução das pesquisas e produções científicas neste complexo cenário em nosso país, repletas de fidedignos ensinamentos. Inclusive, para todos os homens públicos desta nação. Muito ainda precisa e pode ser desenvolvido, tanto na esfera pública quanto privada, para que os direitos dos autistas sejam plenamente defendidos, preservados e, potencialmente, respeitados e cumpridos.

Referências:

DE ALMEIDA, Flávio Aparecido (org.). Autismo: uma abordagem multiprofissional. Vol. 3. Guarujá: Científica Digital, 2024. p. 12-15. Disponível em: https://x.gd/dohds Acesso em: 17 maio 2026.

GAIATO, Mayra. S.O.S Autismo: guia completo para entender o Transtorno do Espectro Autista. São Paulo: nVersos, 2018. Disponível em: https://x.gd/9CSPS Acesso em: 17 maio 2026. p. 18-22

KUPFER, Maria Cristina. Roda Viva. TV Cultura, 27 abr. 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/live/phj-6gAz-Vw?si=llDAE8Lubxk156VF

SCHWARTZMAN, José Salomão. Roda Viva. TV Cultura, 6 abr. 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/live/23io4l5siGc?si=DdXpCAqAmoJ732Iv

Giovanny de Sousa Lima