Enquanto o restante do País se debate com a escalada dos preços dos alimentos, uma região tem se destacado positivamente no cenário nacional. Não se trata de um milagre econômico, mas de um conjunto de fatores que colocam as capitais nordestinas no topo — ou melhor, na base — do ranking do custo de vida no Brasil.
O mais recente levantamento do Dieese e da Conab trouxe uma informação que merece ser comemorada e, principalmente, analisada: as quatro cestas básicas mais baratas do País estão no Nordeste. Sim, você leu certo. Enquanto paulistas pagam quase R$ 1.000 para garantir a alimentação básica da família, os nordestinos desembolsam bem menos para levar os mesmos itens para a mesa.
O ranking dos menores preços — A liderança absoluta ficou com Aracaju (SE), onde o custo médio da cesta básica em junho foi de R$ 630, 40. Na sequência aparece São Luís com R$ 654,73. Em terceiro está Maceió, com R$ 671,41. E em quarto lugar está Natal com R$ 686,07.
Para se ter uma ideia da dimensão dessa diferença, a cesta mais cara do País atualmente, em São Paulo, custa R$ 965,47. Antes de mais nada, esse valor é R$ 335 a mais do que em Aracaju. Esse valor representa mais de um salário mínimo inteiro de diferença anual, o que evidencia um peso muito menor no orçamento das famílias nordestinas.
Mas afinal, por que o Nordeste tem a cesta mais barata? — A resposta não está em um único fator, mas em uma combinação de características econômicas, culturais e logísticas:
1. Composição diferenciada da cesta: A pesquisa do Dieese considera hábitos alimentares regionais. No Norte e Nordeste, a cesta inclui itens como a farinha de mandioca e a banana, que são produtos de produção local e custo mais acessível, enquanto no Sul e Sudeste o consumo de pão francês, batata e legumes frescos eleva o valor final.
2. Proximidade com as fontes produtoras: Grande parte dos alimentos consumidos no Nordeste é produzida na própria região ou em estados vizinhos. Essa logística encurtada reduz custos com frete, armazenamento e perdas, barateando o produto final nas gôndolas dos supermercados.
3. Menor incidência de impostos estaduais: Alguns estados nordestinos adotaram políticas de incentivo fiscal para produtos da cesta básica, reduzindo a carga tributária sobre itens essenciais e repassando esse benefício diretamente ao consumidor.
4. Clima favorável para cultivo de alimentos regionais: A mandioca, o feijão e as frutas tropicais encontram no solo e no clima nordestinos condições ideais para o cultivo, garantindo oferta abundante e preços estáveis ao longo do ano.
E as quedas nos preços? O Nordeste também lidera! — Além de já ter os preços absolutos mais baixos, a região também foi a campeã nas reduções de custo no último mês. João Pessoa (-3,97%), Recife (-3,62%) e Maceió (-3,61%) lideraram o ranking de quedas, demonstrando que, além de barata, a cesta nordestina está ficando ainda mais acessível.
Esse movimento é especialmente importante num momento em que itens como feijão e arroz estão em alta em todo o país devido a problemas climáticos e redução de área plantada. O fato de o Nordeste conseguir reduzir preços mesmo diante desse cenário nacional adverso é um termômetro da resiliência da sua cadeia produtiva local.
Um retrato da desigualdade regional — Contudo, os números também revelam uma dura realidade: o custo de vida no Sudeste e Sul é significativamente mais alto, mas os salários não acompanham essa diferença na mesma proporção. Assim, o Dieese estima que o salário mínimo ideal para suprir todas as necessidades de uma família deveria ser de R$ 8.110,92.
O que esperar daqui para frente? — Embora a notícia seja positiva, especialistas alertam que a situação pode mudar rapidamente. O feijão, por exemplo, subiu em todas as capitais pesquisadas, e a tendência é que o repasse desses aumentos chegue também ao Nordeste nos próximos meses, ainda que com menor intensidade.
Além disso, a safra de grãos no Centro-Oeste e a política de preços dos combustíveis — que impactam diretamente o frete e a logística — são variáveis que podem alterar esse cenário de vantagem regional. Por enquanto, os consumidores nordestinos podem comemorar.
Comprar a cesta básica em João Pessoa, Recife, Maceió, Aracaju, São Luís ou Natal significa gastar menos, comer bem e ter mais fôlego no orçamento para outras áreas da vida. E isso, num país onde o custo de vida só aumenta, é uma vitória e tanto.
Eliseu Lins / Agência NE9

