
Principal vilão inflacionário do período foi o feijão, que registrou altas expressivas em todas as regiões monitoradas
O bolso do trabalhador brasileiro enfrenta um abismo cada vez maior entre o ganho real e o custo de vida indispensável. De acordo com o mais recente levantamento nacional divulgado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o salário mínimo necessário para sustentar uma família de quatro pessoas no Brasil deveria ser de R$ 8.110,92.
O montante representa exatamente cinco vezes o piso oficial de R$ 1.621,00 estipulado pelo governo federal para este ano. A estimativa apresentou uma alta em relação ao mês anterior (quando o ideal calculado era de R$ 7.999,44), impulsionada principalmente pelo encarecimento generalizado dos alimentos em quase todas as capitais do País.
O cálculo do Dieese não é aleatório. Ele toma como base o Artigo 7º da Constituição Federal de 1988, que determina que o salário mínimo deve ser suficiente para suprir as despesas com moradia, alimentação, educação, saúde, transporte, vestuário, higiene, lazer e previdência social. Na prática corrente, contudo, o valor vigente mal consegue garantir o primeiro item da lista.
Após o desconto obrigatório de 7,5% da contribuição previdenciária (INSS), o trabalhador que recebe o piso nacional compromete, em média, 52,02% do seu salário líquido apenas para comprar a cesta básica. O Dieese utiliza o valor da cesta básica mais cara do país para balizar o cálculo nacional. A liderança de custo de vida ficou com a cidade de São Paulo, onde o conjunto de alimentos essenciais atingiu a marca de R$ 965,47.
Na capital paulista, um trabalhador precisa dedicar 131 horas e 2 minutos de sua jornada mensal de trabalho exclusivamente para pagar a comida. Por outro lado, a cidade de Aracaju registrou a cesta básica mais barata do período. Mesmo na capital sergipana, o esforço exigido do trabalhador atinge 85 horas e 34 minutos de suor no mês apenas para garantir a subsistência alimentar básica.
O principal vilão inflacionário do período foi o feijão, que registrou altas expressivas em todas as regiões monitoradas. O relatório do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos reforça o debate nacional sobre a perda do poder de compra e expõe os limites da atual política de valorização do salário mínimo, que embora preveja reajustes anuais acima da inflação, ainda caminha muito longe de cobrir o custo real de vida das famílias brasileiras.
Tribuna 10
