
Movimento do varejo alimentar e o comportamento dos consumidores influenciam vendas, preços e estratégias
Conflitos internacionais El Niño petróleo mais caro e restrições no mercado de fertilizantes devem pressionar a produção agrícola e chegar ao consumidor nos próximos meses. Os preços globais dos alimentos devem enfrentar uma nova trajetória de alta até o fim de 2026, com efeitos que podem se intensificar em 2027, segundo o economista-chefe da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, Máximo Torero.
A avaliação considera a combinação entre conflitos geopolíticos, restrições no Estreito de Ormuz, alta dos combustíveis, redução da oferta de fertilizantes e avanço de um El Niño potencialmente intenso. Como as mudanças nos preços das commodities costumam demorar entre três e seis meses para chegar ao consumidor, parte da pressão atual ainda não apareceu integralmente nos supermercados.
O Índice de Preços dos Alimentos da FAO ficou em 130,3 pontos em junho, com queda mensal de 0,3%, mas ainda estava 1,7% acima do nível registrado um ano antes. O recuo pontual foi sustentado por quedas em cereais, açúcar e produtos lácteos, enquanto carnes e óleos vegetais ficaram mais caros.
Petróleo e fertilizantes elevam os custos agrícolas – A crise no Oriente Médio afeta uma cadeia que vai além do mercado de combustíveis. O petróleo é utilizado na operação de máquinas, no bombeamento de água, no transporte e no processamento dos alimentos. O gás natural, por sua vez, é uma das principais matérias-primas para a produção de fertilizantes nitrogenados.
A FAO estima que os preços globais dos fertilizantes podem permanecer entre 15% e 20% mais altos durante períodos de interrupção prolongada das rotas comerciais ligadas ao Golfo. A redução da disponibilidade de diesel e gás natural também pressiona os custos de plantio e transporte.
El Niño ameaça próximas safras – O El Niño em desenvolvimento deve persistir até o início de 2027 e aumentar o risco de secas, enchentes e mudanças nos padrões de chuva em regiões produtoras da América Latina, África, Ásia e Oceania. Na América Latina, a FAO alerta para possíveis períodos de seca em áreas agrícolas e chuvas excessivas em outras regiões. Na Índia, atrasos ou redução das monções podem prejudicar a produção de arroz. Austrália e países da Ásia também enfrentam riscos para as culturas de inverno e para a produção de cereais, açúcar e óleo de palma.
Trigo milho e arroz podem sentir os efeitos – Os preços internacionais de trigo, milho e arroz já apresentaram movimentos de alta em parte de 2026, influenciados por custos de fertilizantes, condições climáticas e incertezas sobre as próximas colheitas. A FAO avalia que as reservas e as boas safras anteriores ainda ajudam a conter uma escalada mais rápida. O problema pode aparecer no próximo ciclo, caso agricultores reduzam a aplicação de fertilizantes, diminuam a área plantada ou migrem para culturas com menor necessidade de insumos.
Produtores dos Estados Unidos projetam perdas – A American Farm Bureau Federation estima que produtores das nove principais culturas agrícolas dos Estados Unidos podem acumular perdas de aproximadamente US$ 32 bilhões em 2027, depois de uma projeção de US$ 31 bilhões para 2026. A entidade aponta que milho, soja, trigo, algodão e outras culturas podem permanecer abaixo do ponto de equilíbrio, diante da combinação entre custos elevados e preços insuficientes para cobrir integralmente as despesas de produção.
Brasil pode enfrentar pressão sobre custos e alimentos – O Brasil é um dos maiores produtores agrícolas do mundo, mas continua dependente da importação de parte relevante dos fertilizantes utilizados nas lavouras. A alta do petróleo também afeta frete, máquinas, embalagens, armazenagem e distribuição. Para os produtores, o primeiro impacto tende a aparecer nas margens e na decisão sobre área plantada e aplicação de insumos.
Para o consumidor, a pressão pode surgir posteriormente nos preços de pães, massas, carnes, óleos, arroz e outros produtos ligados às commodities agrícolas. Na Paraíba e no Nordeste, o risco climático ganha peso adicional. A irregularidade das chuvas pode afetar milho, feijão, pecuária e agricultura familiar, enquanto a alta dos insumos aumenta os custos de ração, transporte e produção.
Cenário exige planejamento e proteção dos mais vulneráveis – A possível nova onda de inflação dos alimentos exige acompanhamento de estoques, produção, importações e preços ao consumidor. Empresas precisam revisar contratos, custos logísticos e estratégias de compras.
Produtores devem avaliar alternativas de fertilização, culturas adaptadas ao clima e formas de reduzir a exposição à volatilidade internacional. Para os governos, o desafio será proteger famílias de menor renda, que comprometem uma parcela maior do orçamento com alimentação, sem abandonar investimentos em irrigação, armazenamento, assistência técnica e segurança hídrica.
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