
Quase três quartos das peças, 72%, usavam indevidamente o nome, brasão ou identidade visual do Governo Federal
Quem está negativado e vê nas redes sociais uma oferta imperdível para “limpar o nome” precisa parar antes de clicar. Um levantamento recente mostrou que centenas de anúncios com esse tipo de promessa são, na verdade, iscas para roubar dinheiro e dados pessoais — e o problema é maior e mais antigo do que parece à primeira vista.
Por que esse golpe funciona tão bem — O terreno para esse tipo de fraude é fértil porque o problema que ela explora é real e enorme. Segundo o Mapa da Inadimplência da Serasa, o Brasil tem 83,5 milhões de pessoas com dívidas em atraso — o equivalente a 50,5% da população adulta do país. Quando mais da metade dos adultos brasileiros está, de alguma forma, procurando uma saída para o nome sujo, qualquer anúncio que prometa solução rápida encontra um público disposto a arriscar, mesmo sem checar a origem da oferta.
O que a pesquisa mais recente encontrou — Entre 1º de abril e 14 de junho de 2026, o Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NetLab/UFRJ) mapeou 544 anúncios fraudulentos circulando nas plataformas da Meta — Facebook, Instagram e WhatsApp. O Ministério da Fazenda usou esse levantamento para emitir um alerta formal à população, publicado na última sexta-feira (7). Dois números do estudo chamam atenção especial.
Quase três quartos das peças, 72%, usavam indevidamente o nome, o brasão ou a identidade visual do Governo Federal para parecer confiáveis. E 38% dos conteúdos foram produzidos com apoio de inteligência artificial — o que explica por que essas fraudes estão cada vez mais difíceis de distinguir de uma comunicação oficial real, com linguagem formal, logotipos bem reproduzidos e até vídeos gerados artificialmente. O carro-chefe da fraude é um programa que simplesmente não existe: o “Libera Brasil”. Segundo o NetLab/UFRJ, quase metade dos anúncios analisados (49%) citava esse nome fantasioso, criado para soar como uma política pública legítima e se aproveitar da confusão com iniciativas reais de renegociação.
Não é um caso isolado: o padrão se repete desde o início do ano — Esse não é o primeiro alerta do tipo em 2026, e isso importa para entender a dimensão do problema. Um levantamento anterior do próprio NetLab/UFRJ, obtido pelo g1, já havia identificado 860 anúncios fraudulentos publicados por 152 páginas diferentes entre janeiro e março — um volume ainda maior que o mais recente. Naquela leva, os golpistas não se limitaram a dívidas: eles também se apropriaram do programa Valores a Receber do Banco Central (345 peças), do Brasil Sorridente (230), do Minha Casa Minha Vida (67), do Auxílio Gás (62) e do Bolsa Família (31). O Desenrola Brasil, alvo do alerta mais recente, já aparecia com 19 ocorrências naquele período.
Um detalhe da apuração ajuda a entender por que esses anúncios são tão difíceis de conter: em mais de um a cada quatro casos (26,3%), o mesmo anunciante explorava mais de uma política pública dentro da mesma campanha, alternando o gancho conforme o público. Os anúncios fraudulentos também costumam ficar no ar, em média, por apenas 4,4 dias — o suficiente para captar vítimas e sumir antes de qualquer fiscalização mais lenta, embora alguns cheguem a permanecer ativos por mais de um mês. Ou seja: não se trata de um anunciante isolado que escapou da moderação, mas de uma operação recorrente que testa novos nomes, novas artes e novos programas sociais a cada ciclo.
Como o golpe funciona na prática — O roteiro identificado pelos pesquisadores segue sempre a mesma lógica, ainda que a “casca” do anúncio mude. A página falsa promete quitar ou reduzir a dívida em poucos dias e pede, logo de início, a consulta do CPF para verificar uma suposta elegibilidade. A partir daí, um chat automatizado — muitas vezes também gerado por IA — coleta dados pessoais e informações sobre os débitos, incluindo faturas de cartão de crédito.
A etapa final é a cobrança de uma “taxa administrativa” para liberar o benefício, quase sempre solicitada via Pix. Esse dinheiro não financia nenhuma negociação: ele vai direto para os golpistas, e a dívida original continua exatamente como estava — só que agora acompanhada de um novo prejuízo.
Há ainda uma camada adicional de risco que passa despercebida por muita gente: ao informar CPF, telefone e detalhes das dívidas em um chat que não pertence a nenhuma instituição financeira, a vítima entrega um pacote de dados que pode ser revendido ou reutilizado em golpes futuros, como ligações de falsos “renegociadores” ou tentativas de abertura de crédito em nome dela. Ou seja, mesmo quem desconfia na hora do Pix e não chega a pagar nada já pode ter sofrido um vazamento de informações sensíveis só por ter respondido ao chat.
Onde denunciar um anúncio suspeito — Encontrar uma dessas peças não significa apenas ignorá-la — denunciar ajuda a derrubar a campanha antes que ela alcance mais pessoas. O caminho mais rápido é usar a própria ferramenta de denúncia da rede social (o menu de três pontos sobre o anúncio ou perfil, com a opção “Denunciar”), o que ajuda a plataforma a mapear páginas reincidentes.
Quando há prejuízo financeiro ou coleta indevida de dados, o passo seguinte é registrar um Boletim de Ocorrência pela Delegacia Virtual da Polícia Civil do seu estado, guardando prints do anúncio, do chat e dos comprovantes de pagamento antes de qualquer coisa — o link completo da página é mais importante que o print, porque comprova a origem do golpe. Casos que envolvam falsidade de identidade de órgão federal também podem ser reportados à Polícia Federal pelo canal Comunica PF, e reclamações de consumo podem ser formalizadas na plataforma consumidor.gov.br, monitorada pelos Procons de todo o Brasil.
Bruno Ferreira / Rede Brasil News
