Segurança pública foi um dos assuntos presentes no primeiro debate entre os candidatos ao Governo da Paraíba. E um dos discursos chamou atenção ao destacar uma polícia equipada, com armamentos, coletes balísticos, viaturas e estrutura para enfrentar a criminalidade. Tudo isso é necessário. Mas segurança pública não cabe apenas dentro de uma viatura. Existe alguém dentro dela.
Existe o policial. É ele quem entra na área de risco. É ele quem atende uma ocorrência enquanto outras pessoas tentam fugir dela. É ele quem trabalha durante a madrugada, enfrenta confrontos, recebe ameaças e convive diariamente com a possibilidade de não voltar para casa. E essa realidade ganhou um rosto na Paraíba.
O soldado Ícaro Flávio, de apenas 30 anos, foi baleado durante uma ocorrência em Santa Rita. Socorrido para o Hospital de Trauma de João Pessoa, não resistiu aos ferimentos. Ícaro saiu para trabalhar. Não voltou para casa. A ocorrência também terminou com um suspeito morto, seis pessoas detidas e outro homem ferido. É nesse momento que o discurso eleitoral precisa encontrar a realidade.
Porque quando se fala em segurança pública, normalmente aparecem números de operações, prisões, armas apreendidas, viaturas entregues e policiais colocados nas ruas. Mas existe uma pergunta que precisa ser feita: O que acontece depois que o policial prende? Essa é uma das maiores frustrações de quem está na linha de frente. O policial passa horas em uma operação. Entra em uma área de risco. Enfrenta criminosos. Apreende armas e drogas. Prende suspeitos e entrega tudo ao sistema.
A partir dali, começa outra etapa. E é justamente nesse ponto que surge aquilo que muitos profissionais enxergam como um verdadeiro efeito enxuga gelo. Não porque o trabalho policial seja inútil. Muito pelo contrário. Mas porque uma prisão não significa necessariamente o fim da atividade criminosa. Existem decisões judiciais, regras processuais, audiências de custódia, progressões de regime e outros mecanismos legais que fazem parte do sistema de Justiça. Em determinadas situações, pessoas investigadas ou condenadas podem retornar ao convívio social.
Quando existe reincidência, o problema volta para as ruas. E quem estará novamente diante dele? O policial. A mesma viatura. O mesmo território. E, muitas vezes, o mesmo criminoso. É justamente nesse ambiente que as facções criminosas encontraram espaço para crescer. O crime organizado deixou de ser apenas uma questão de pequenos grupos disputando determinados pontos das periferias. As facções passaram a atuar de maneira cada vez mais estruturada, buscando território, dinheiro, influência, recrutamento de jovens, controle de mercados ilícitos e diferentes formas de infiltração.
O enfrentamento, portanto, deixou de ser apenas uma questão de colocar mais policiais nas ruas. É preciso inteligência. É preciso investigação. É preciso combater o dinheiro do crime. É preciso fortalecer o sistema penitenciário. É preciso impedir que as organizações criminosas continuem recrutando. E é preciso integração entre as instituições responsáveis pela segurança e pela Justiça. Porque o policial pode prender um integrante de uma organização criminosa.
Mas, se a estrutura continuar funcionando, outro ocupará o lugar. É aí que a discussão eleitoral precisa ser mais profunda. De que adianta fortalecer apenas a ponta de um sistema que precisa funcionar por inteiro? Uma polícia forte precisa de armas adequadas. Precisa de coletes. Precisa de viaturas. Precisa de tecnologia.
Mas precisa também de efetivo suficiente, remuneração compatível, carreira estruturada, assistência à saúde, proteção para a família e uma aposentadoria que não represente uma perda brutal na qualidade de vida. Porque existe uma contradição que precisa ser enfrentada. Durante anos, o policial pode aumentar sua renda por meio de plantões, escalas extras e outras atividades. Mas também aumenta seu desgaste. São noites mal dormidas. Finais de semana longe da família. Confrontos. Ameaças. Estresse. Problemas físicos e emocionais. E, depois de décadas, chega a aposentadoria ou reforma.
É nesse momento que surge outra pergunta: quanto vale, afinal, uma carreira construída sob risco permanente? Não se trata apenas de salário. Trata-se de dignidade. O policial não pode ser lembrado apenas quando falta segurança. Não pode ser valorizado somente quando aparece uma operação de grande repercussão. E não pode ser tratado como uma peça descartável de uma engrenagem que cobra resultados, mas não discute suficientemente as consequências humanas dessa profissão.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 mostra o tamanho do risco enfrentado pelas forças de segurança no país. Em 2025, foram registradas 6.602 mortes decorrentes de intervenções policiais no Brasil. Por trás das estatísticas, entretanto, existem pessoas. E a morte de Ícaro Flávio lembra que, na Paraíba, essa discussão não é abstrata. É real. É uma família que perdeu alguém. É uma farda que ficou vazia. É uma mãe, um pai, uma esposa, filhos ou familiares que esperavam aquele profissional voltar para casa.
Por isso, nas eleições de 2026, segurança pública precisa ser discutida de dentro para fora. Os candidatos precisam dizer como pretendem combater o avanço das facções. Como pretendem fortalecer a inteligência policial. Como pretendem integrar segurança, investigação, Ministério Público, Judiciário e sistema penitenciário. Como pretendem ampliar e distribuir adequadamente o efetivo. E, principalmente, como pretendem cuidar de quem está na linha de frente. Porque o eleitor quer segurança. O policial também.
A diferença é que o cidadão espera que o Estado proteja sua vida. O policial, muitas vezes, precisa arriscar a própria vida para proteger a do cidadão. E quando ele prende alguém, o sistema precisa ser capaz de transformar aquela prisão em uma resposta efetiva contra o crime, e não permitir que a violência simplesmente se reorganize.
A eleição passa. Os discursos passam. Os governos mudam. Mas o policial continua entrando na viatura. Continua patrulhando. Continua atendendo ocorrências. Continua enfrentando criminosos. E continua sem saber se voltará para casa. Por isso, a pergunta que fica para os candidatos ao Governo da Paraíba não é apenas quem vai equipar melhor a polícia.
É: quem vai construir uma política de segurança capaz de proteger a sociedade, combater as facções e, ao mesmo tempo, proteger o policial? Porque entre assegurar a vida da sociedade e arriscar a própria, existe uma pergunta que não pode ser ignorada: será que ainda vale a pena ser policial quando o preço de defender a sociedade pode ser a própria vida?
Adriano Lourenço
