O Brasil voltou a celebrar o 7 de Setembro. Bandeiras nas ruas, desfiles militares, autoridades em palanques, discursos sobre patriotismo e homenagens à Independência. A data continua sendo um dos principais símbolos cívicos do país. Mas, diante da realidade brasileira, uma pergunta permanece: de que independência estamos falando?

A Independência do Brasil foi conquistada formalmente em 1822. Mais de dois séculos depois, o país ainda enfrenta desafios que colocam em debate o significado prático dessa independência. Uma nação independente não se sustenta apenas por símbolos, cerimônias e discursos. Independência também envolve soberania, instituições equilibradas, capacidade econômica, respeito à população e participação efetiva da sociedade nas decisões que interferem em seu futuro.

Os últimos anos mostraram que o Brasil continua vulnerável a pressões externas e a disputas que ultrapassam suas próprias fronteiras. As recentes tensões comerciais envolvendo os Estados Unidos e medidas adotadas pelo governo de Donald Trump, por exemplo, voltaram a colocar em discussão até que ponto o Brasil consegue proteger seus interesses diante das decisões de grandes potências.

Enquanto isso, internamente, o país mantém uma velha contradição: o povo é chamado para comemorar a pátria, mas nem sempre participa das decisões que definem os rumos dessa mesma pátria.

Nos desfiles, políticos, autoridades, militares, representantes da oposição e integrantes do governo aparecem lado a lado. Há cumprimentos, fotografias e discursos institucionais. Pouco tempo depois, o cenário muda. No Congresso, nas redes sociais e nos palanques, o confronto retorna. Governo e oposição disputam narrativas, espaço e poder, muitas vezes colocando o debate político acima das necessidades reais da população.

A política brasileira parece ter se transformado em uma disputa permanente por quem fala mais alto.

E o cidadão, onde está?

O eleitor acompanha discussões, escândalos, denúncias, decisões judiciais e crises políticas. Reclama nas conversas, manifesta indignação nas redes sociais, mas raramente transforma essa insatisfação em mobilização organizada e permanente.

O Brasil já demonstrou, em outros momentos, que a pressão popular pode produzir consequências políticas. O movimento dos caras-pintadas, durante a crise que levou ao impeachment do então presidente Fernando Collor, mostrou que a sociedade organizada pode ocupar espaços e influenciar acontecimentos nacionais.

Hoje, porém, a indignação parece fragmentada.

Cada grupo defende seu lado. Cada cidadão escolhe uma narrativa. E, muitas vezes, a defesa de um político se torna mais importante do que a cobrança por resultados.

Direita e esquerda continuam alimentando uma disputa que, em muitos momentos, parece distante dos problemas enfrentados pela população. No plenário, o conflito é permanente. Nos eventos institucionais, adversários dividem o mesmo espaço como se as divergências desaparecessem.

O problema não está na existência da oposição ou do confronto político. Democracia pressupõe divergência. O problema começa quando a política deixa de discutir soluções e passa a funcionar apenas como uma disputa entre grupos.

Também é impossível falar de soberania sem discutir as condições do próprio país para se defender. As Forças Armadas são apresentadas nos desfiles como símbolo da capacidade nacional de proteção. Mas o debate sobre defesa não pode se limitar à exibição de equipamentos e tropas. O próprio país precisa discutir as condições estruturais, orçamentárias e operacionais de suas instituições militares.

A defesa da soberania não pode existir apenas no desfile.

Ela precisa existir na prática.

O mesmo ocorre com as instituições. O Brasil assiste a debates cada vez mais intensos sobre o papel do Supremo Tribunal Federal. Decisões, posicionamentos e a atuação de ministros passaram a ocupar diariamente o centro da discussão política.

A sociedade percebe diferenças de postura entre os integrantes da Corte. De um lado, ministros adotam posições consideradas mais moderadas em determinados debates. De outro, decisões e medidas adotadas por ministros como Alexandre de Moraes provocam críticas e divisões profundas no ambiente político e social.

A questão não deveria ser escolher um ministro para defender e outro para atacar.

A questão deveria ser discutir os limites, a transparência e o equilíbrio das instituições.

Uma democracia não pode depender da identificação pessoal de cada cidadão com determinado juiz, político ou partido. Instituições precisam ser questionadas dentro dos limites democráticos, porque nenhuma democracia se fortalece quando o cidadão abandona o direito de perguntar.

E o questionamento precisa alcançar todas as estruturas de poder.

O Ministério Público cobra gestores pelo excesso de contratações e pela permanência de pessoas em cargos que deveriam ser ocupados por meio de concurso público. Ao mesmo tempo, existe uma realidade humana que não pode ser ignorada: por trás de muitos desses trabalhadores existem pais e mães de família.

O problema, portanto, não está apenas em quem ocupa o cargo.

Está em um sistema que, durante décadas, permite que vínculos precários substituam a realização de concursos e transformem necessidades básicas de trabalho em dependência política.

E as eleições continuam chegando.

O eleitor será novamente chamado a escolher.

A pergunta é se a escolha será feita a partir de propostas, resultados e responsabilidades ou apenas pela repetição das mesmas paixões políticas.

O Brasil celebra sua Independência todos os anos. Mas talvez a principal reflexão do 7 de Setembro esteja justamente fora dos desfiles.

Que independência é essa quando parte da população ainda depende da política para conseguir aquilo que deveria receber como direito?

Que país é esse onde políticos ocupam espaço permanente na mídia, muitas vezes não por realizações, mas por conflitos, investigações, acusações e disputas?

Que democracia é essa quando parte da sociedade parece mais disposta a defender seus representantes do que a cobrar deles?

Que país é esse onde o cidadão é incentivado a levantar a bandeira, mas nem sempre a acompanhar o que acontece depois que os palanques são desmontados?

A Independência não pode ser apenas uma data no calendário.

Não pode ser apenas uma bandeira, um desfile ou um discurso.

O Brasil precisa decidir se continuará celebrando uma independência simbólica ou se pretende construir, na prática, uma sociedade mais consciente de seus direitos e de suas responsabilidades.

Talvez o maior problema não seja perguntar se o Brasil está caminhando para um caminho perigoso.

A pergunta mais importante é outra:

Até quando o brasileiro estará disposto a assistir aos acontecimentos, reclamar deles e, depois, seguir em frente como se nada tivesse acontecido?

Como diz a conhecida canção, “Que país é este?”

Mais de duzentos anos depois da Independência, talvez ainda estejamos procurando uma resposta.

Porque existe o Brasil dos palanques, dos poderes e das disputas políticas.

E existe o Brasil de quem trabalha, paga impostos, enfrenta serviços públicos deficientes e espera, eleição após eleição, que alguma coisa realmente mude.

No fim, talvez a maior independência que ainda falte ao Brasil seja a independência do cidadão diante daqueles que ele próprio coloca no poder.

Adriano Lourenço