
Fóruns Regionais já mobilizaram cerca de 11 mil pessoas no Nordeste e buscam aproximar políticas nacionais
A economia circular começa a etapa de implementação no Brasil, com foco em transformar estratégias nacionais em ações adaptadas às características de cada território. A pesquisa “A economia circular está no DNA das indústrias brasileiras”, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), aponta que 57% das empresas brasileiras já adotam pelo menos uma prática de economia circular.
Apesar do avanço, a ampliação desse modelo ainda enfrenta obstáculos. Entre os principais desafios identificados estão a falta de demanda por produtos circulares, dificuldades de financiamento e limitações relacionadas à adoção de novas tecnologias. A necessidade de adaptar a agenda às características de cada região está no centro da experiência dos Fóruns Regionais de Economia Circular, que já mobilizaram cerca de 11 mil pessoas no Nordeste.
A iniciativa é liderada atualmente por Liu Berman, responsável pela construção dos fóruns e à frente do Instituto Reinventando Futuros. O trabalho reúne governos, empresas, academia, organizações locais e comunidades para transformar a discussão sobre economia circular em processos permanentes de implementação territorial.
Estratégia nacional precisa considerar cada território – Para Liu, o desafio atual não está apenas em definir uma direção nacional para a economia circular, mas em criar condições para que essa agenda seja executada de acordo com as características de cada região.
“O Brasil avançou bastante na construção de uma direção para a economia circular, o desafio agora é transformar essa direção em capacidade real de implementação. E isso exige algumas coisas muito concretas: governança, orçamento, responsáveis, indicadores e articulação entre os diferentes atores. Mas tem um ponto que, para mim, é central: essa implementação precisa considerar as diferenças territoriais. Uma política nacional pode orientar o país, mas ela não pode chegar da mesma forma a todos os lugares. A experiência que eu tenho vivido com os Fóruns Regionais mostra isso com muita clareza. Quando a gente chega nos territórios, a economia circular aparece conectada a outras agendas, desenvolvimento econômico, bioeconomia, economia criativa, economia popular e solidária, turismo, resíduos, inovação”, explica Liu.
A experiência dos fóruns mostra que não existe um único caminho para a circularidade. Pará, Ceará, Alagoas e São Paulo, por exemplo, possuem estruturas econômicas, cadeias produtivas, infraestrutura e capacidades institucionais distintas. Em alguns territórios, as oportunidades podem estar concentradas na indústria, logística reversa e gestão de resíduos. Em outros, atividades como bioeconomia, turismo comunitário, artesanato, economia popular e saberes tradicionais podem oferecer caminhos para novos modelos produtivos.
“Uma política nacional precisa ter uma direção comum, mas não pode pressupor uma única forma de implementação. Quando a gente olha para os territórios, percebe que a economia circular se manifesta de formas muito diferentes. Em alguns lugares, ela aparece mais vinculada à indústria, à logística reversa e à gestão de resíduos. Em outros, ela está profundamente conectada à bioeconomia, ao turismo comunitário, ao artesanato, à economia popular, aos saberes tradicionais e às vocações locais. Então, para mim, o ponto de partida precisa ser entender quais ativos aquele território já possui, quais atores estão presentes, quais cadeias econômicas existem, quais são os gargalos de infraestrutura e quais capacidades já estão instaladas. A implementação precisa ter flexibilidade suficiente para ser construída a partir da realidade de cada território”, afirma.
Fóruns buscam continuidade além dos eventos – Nas duas últimas edições do Fórum Nacional de Economia Circular (FNEC), foram mobilizados mais de 350 painelistas, entre gestores, líderes comunitários e representantes internacionais. A programação ultrapassou 300 horas. A proposta agora é transformar essa mobilização em uma estrutura permanente de articulação, evitando que as discussões fiquem restritas aos encontros.
“Governo, empresas, academia, organizações locais e comunidades têm papéis, interesses e capacidades diferentes. O desafio é construir um espaço em que essas diferenças consigam se transformar em complementaridade. E isso exige governança. Exige clareza sobre quem pode contribuir com o quê, quais são as prioridades comuns e como aquela articulação continua depois do encontro. Talvez um dos maiores riscos seja criar muitos espaços de conversa e poucos mecanismos de continuidade”, destaca Liu Berman.
Para a indústria, a necessidade de continuidade também está relacionada aos obstáculos para ampliar as práticas circulares. Embora 57% das empresas pesquisadas pela CNI já adotem ao menos uma iniciativa, questões econômicas, tecnológicas e de inovação ainda limitam a expansão. A transição, portanto, depende não apenas da disposição das empresas, mas também de políticas públicas, instrumentos financeiros, infraestrutura e articulação entre os diferentes setores.
Tecnologia pode acelerar novas soluções – A discussão também se aproxima de ambientes de inovação e tecnologia, como o HackTown. Inteligência artificial, dados, plataformas digitais e sistemas de rastreabilidade podem contribuir para aumentar a eficiência, conectar cadeias produtivas e desenvolver novos modelos de negócio. Para Liu, porém, inovação territorial não deve ser associada exclusivamente à tecnologia.
“Eu acho que o HackTown traz uma oportunidade importante de ampliar o que a gente entende por inovação. Muitas vezes, quando falamos em inovação, a gente imediatamente pensa em tecnologia, inteligência artificial, dados, plataformas. E tudo isso pode contribuir muito para a economia circular, seja em rastreabilidade, eficiência, novos modelos de negócio, gestão de cadeias ou tomada de decisão. Mas as experiências recentes nos territórios têm me provocado a olhar para inovação de uma forma mais ampla”, explica. Nesse contexto, a economia circular passa a ser tratada também como uma agenda de desenvolvimento econômico, capaz de conectar diferentes atividades e aproveitar recursos e capacidades que já existem em cada região.
“Talvez o maior desafio seja parar de perguntar apenas qual tecnologia precisamos criar e começar a perguntar que problema queremos resolver e quais capacidades já existem no território para isso. E acho que isso dialoga diretamente com a economia circular, porque muitas das soluções que precisamos construir não começam necessariamente pela tecnologia. Elas começam pela capacidade de reconhecer o que já existe, conectar atores, organizar recursos e criar novos modelos a partir dessas capacidades”, conclui Liu Berman.
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