A sucessão de mudanças de apoio entre prefeitos paraibanos na reta final da eleição está colocando em evidência a força das articulações políticas que envolvem o governador Lucas Ribeiro, o presidente da Câmara Federal, Hugo Motta, o deputado Aguinaldo Ribeiro e outras lideranças do grupo governista. Enquanto 13 prefeitos anunciam a saída do apoio a Veneziano Vital do Rêgo em apenas uma semana, o cenário levanta uma pergunta que permanece nos bastidores: o que está levando essas lideranças a mudar de lado justamente neste momento da campanha?
De repente, tudo muda.
Prefeitos que estavam em um palanque aparecem no outro. Lideranças que defendiam determinada candidatura passam a defender o adversário. E algumas dessas mudanças acontecem justamente quando a eleição entra na reta decisiva.
Na Paraíba, a sequência de adesões ganhou força nos últimos dias. Segundo informações divulgadas pelo grupo governista, 13 prefeitos deixaram o apoio ao senador Veneziano Vital do Rêgo em apenas uma semana e passaram a declarar voto em João Azevêdo e Nabor Wanderley. Entre os movimentos recentes estão os prefeitos de Gurinhém e São João do Tigre.
Em Santa Rita, o prefeito Jackson Alvino também deixou de apoiar Veneziano para aderir a Nabor Wanderley, passando a apoiar a chapa governista para o Governo e o Senado.
A questão que surge não é apenas por que esses prefeitos mudaram de posição.
A pergunta é: o que está acontecendo nos bastidores?
Não existe, até o momento, prova pública de que dinheiro do Banco Master tenha sido utilizado para comprar apoio político de prefeitos paraibanos. Essa afirmação não pode ser feita sem documentos que a sustentem.
Mas existe um cenário político que merece ser observado.
De um lado está o governador Lucas Ribeiro, candidato à reeleição. De outro, Nabor Wanderley, candidato ao Senado e pai de Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados.
E, nesse mesmo campo político, está Aguinaldo Ribeiro, deputado federal e tio de Lucas Ribeiro. A aproximação política entre Hugo Motta e Aguinaldo Ribeiro faz parte das articulações em torno do projeto governista.
É uma composição que reúne Governo do Estado, Presidência da Câmara Federal, representação no Congresso e uma ampla rede de prefeitos.
Para qualquer prefeito, trata-se de uma estrutura política com capacidade de articulação estadual e federal.
Isso, por si só, não representa irregularidade.
Prefeitos são livres para escolher seus candidatos. Parlamentares podem construir alianças. Governadores podem buscar apoio. Lideranças podem mudar de posição.
A questão é saber onde termina a articulação política legítima e onde começa a barganha.
E essa discussão ganhou outro ingrediente: o Banco Master.
Mensagens analisadas pela Polícia Federal apontaram que Hugo Motta pediu a Daniel Vorcaro a liberação de um empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões para uma empresa de sua cunhada. O pedido ocorreu em 2024, antes de Motta assumir a presidência da Câmara. As mensagens ainda estavam sob análise da Polícia Federal quando a informação foi divulgada.
Mais recentemente, Hugo Motta recorreu à Justiça Eleitoral contra uma propaganda de Veneziano que perguntava quem seria o candidato do Banco Master na Paraíba. Motta alegou que a peça fazia uma associação indevida entre o banco, supostos pagamentos por apoios políticos e a candidatura de Nabor Wanderley.
A Justiça Eleitoral também concedeu direito de resposta a Motta em outra ação relacionada a propaganda que mencionava o Banco Master.
E, nesta quinta-feira, 24 de setembro, a assessoria jurídica de Veneziano protocolou uma ação de investigação judicial eleitoral contra Hugo Motta e Nabor Wanderley, fazendo alegações relacionadas ao trânsito de recursos e às relações de Motta com Vorcaro. São alegações apresentadas pela campanha de Veneziano e que ainda dependem da análise da Justiça Eleitoral.
Portanto, é preciso separar as coisas.
A existência de mensagens envolvendo Vorcaro e Hugo Motta é um fato divulgado a partir da investigação.
A existência de mudanças de apoio de prefeitos também é um fato.
A aproximação política entre os grupos de Hugo Motta e Aguinaldo Ribeiro também é pública.
Mas isso não significa, automaticamente, que exista uma relação entre o caso Banco Master e a mudança de posição dos prefeitos.
Essa ligação ainda precisaria ser comprovada.
E é justamente aí que está a questão.
De um lado, o senador Veneziano Vital do Rêgo, que busca a reeleição.
Do outro, uma estrutura política que reúne o governador Lucas Ribeiro, o presidente da Câmara Federal, Hugo Motta, o deputado federal Aguinaldo Ribeiro, a senadora Daniela Ribeiro e o ex-governador João Azevedo.
Uma estrutura que reúne Governo do Estado, Câmara Federal, Senado, Congresso Nacional e uma extensa rede de prefeitos.
Agora vem a pergunta:
há equilíbrio para que as palavras de compromisso dadas ontem por prefeitos continuem valendo hoje?
Porque o que estamos acompanhando é uma sucessão de mudanças.
Prefeitos que ontem declaravam apoio a Veneziano agora aparecem ao lado de Nabor, João Azevedo e Lucas Ribeiro.
O prefeito pode mudar.
A liderança pode rever sua estratégia.
A aliança pode ser desfeita.
Tudo isso faz parte da democracia.
Mas quando tantas mudanças acontecem em um intervalo tão curto, especialmente na reta final de uma eleição, a sociedade tem o direito de perguntar o que motivou cada decisão.
Foi convicção?
Foi estratégia?
Foi aproximação administrativa?
Foi uma perspectiva de futuro?
Ou existem negociações que o eleitor ainda não conhece?
São perguntas, não acusações.
Porque política sempre foi feita de negociação.
Prefeito precisa de governador. Governador precisa de prefeitos. Deputado precisa de base. Senador precisa de votos. Municípios precisam de recursos e Brasília precisa das bancadas.
O problema começa quando o cidadão não consegue enxergar onde termina o interesse público e onde começa o interesse particular.
No passado, compromisso político era muitas vezes simbolizado pelo aperto de mão.
Olho no olho.
Palavra dada.
Hoje, o eleitor precisa de mais do que um aperto de mão.
Precisa saber o que foi combinado antes dele.
Porque quem está na rua vê o palanque, a fotografia, o vídeo e o discurso.
Mas não vê a reunião fechada.
Não ouve a conversa reservada.
Não sabe quais compromissos foram assumidos.
E talvez essa seja uma das perguntas mais importantes desta eleição:
Quando um prefeito muda de lado, mudou a convicção ou mudou a oportunidade?
A resposta precisa vir dos próprios envolvidos.
Ao jornalismo cabe perguntar, investigar, confrontar versões e apresentar os fatos.
Ao eleitor cabe observar.
Porque alianças podem mudar.
A política pode mudar.
Mas compromisso público deveria continuar tendo valor.
Adriano Lourenço
