O fenômeno, impulsionado por uma massa de ar quente e seco, já vem atuando em diversas regiões do País

O fenômeno climático El Niño não se constitui em fato novo. É bastante antigo e vem sendo estudado, sistematicamente, por inúmeros cientistas em diversos países, inclusive no Brasil, com sua origem, consequências, impactos, cada mais vez evolutivos, desdobramentos nefastos, já, significamente, conhecidos. As pesquisas e análises científicas sobre o referido fenômeno se baseiam na percepção, bem fundamentada, da temperatura do Oceano Pacífico e das conexões existentes com a atmosfera.

Pesquisas efetivas comprovam que o aquecimento desigual das águas do pacífico resulta em aumento da temperatura das águas e consequente modificação da pressão atmosférica, com desvios ou alterações das correntes aéreas em várias direções. No caso brasileiro, sobretudo sobre a Amazônia e o nosso querido Nordeste.

Efeitos do El Niño, como estão ocorrendo no segundo semestre de 2026, com previsão de estender-se até fevereiro de 2027, costumam causar aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical, promover alterações na circulação das águas do Oceano Atlântico, interferindo nos índices pluviométricos e nas temperaturas de muitas regiões do planeta. Um dos efeitos mais conhecidos e deletérios é o prolongamento das secas na região semiárida do Brasil. E isso é muito preocupante.

Como a Paraíba está com a maioria do seu território localizado no Polígono das Secas, se faz necessário a adoção de políticas públicas por parte de parcela considerável dos municípios paraibanos, obviamente, objetivando a implementação de processos de prevenção e enfretamento dos impactos do El Niño, especialmente em regiões como essa. Não é alarmismo destacar que efeitos do fenômento climático já são visíveis em todas as regiões do País, especialmente nas regiões Sul e Nordeste, com mais intensidade.

É inegável que em um país como o nosso, de dimensão continental, com biomas, ecossistemas diversos, submetidos também a climas e temperaturas diversas, detentor de culturas de plantation (voltada prioritariamente para exportação), como: soja, cafè, laranja, entre outras. O El Niño na atualidade, com seus impactos nefastos, já atinge parte considerável da produção de tais culturas, causando imensos prejuízos aos seus produtores.

Retroalimentação de crendices, superstições, com estabelecimento de crédito e responsabilidade do prolongamento de secas no Sertão Nordestino a São Pedro, é delírio, irracionalidade. A ciência está provando que o El Niño tem relação direta com o recrudescimento das secas no Nordeste. Ficar equidistante, radicalmente, do negacionismo, e amparar-se no que a comunidade científica internacional e nacional está revelando sobre tal fenômeno é a posição e comportamento que todos devemos adotar, assumir, na teoria e prática, evitando, com isso, que os efeitos do El Niño sejam menos devastadores do que revelam os fatos amplamente veículados pelos meios de comunicação da massa, cotidianamente.

Percebe-se que temas como: Aquecimento Global, mudanças climáticas, El Niño e seus efeitos, precisam de maneira sistemática, abrangente, ser trabalhados pelos professores e professoras, principalmente com as crianças e adolescentes, em todas as escolas do Brasil. A que existirem, continuamente, processos formativos embasados nos fatos e fenômenos que estão a permear, e permearão potencialmente, o Século XXI, efetando evolutivamente o planeta e a existência da humanidade.

Problematizando

Países capitalistas do G7 (Grupo dos 7 países mais desenvolvidos do mundo) não poderiam criar, manter e socializar recursos de um viável fundo internacional para prevenção e solução das demandas decorrentes do aquecimento global, mudanças climáticas, El Niño, acima de tudo nos países subsdesenvolvidos?

O Estado Brasileiro, os entes da federação nacional, realmente estão desenvolvendo investimentos e preparados para se contrapor aos efeitos do El Niño, em vários lugares do Brasil?

A Confederação Nacional de Municípios (CNM), no contexto da atual conjuntura nacional, está orientando realmente os gestores municipais acerca de tudo que diz respeito ao El Niño e suas consequências físícas, sociais, econômicas e humanas?

O Poder Executivo Municipal, em cada município deste país, está operacionalizando medidas, orientações e ações viáveis com os agricultores, pecuaristas, camponeses e camponesas, população urbana, sobre prevenção e solução dos problemas derivados do El Niño?

As Organizações das Nações Unidas, através do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA); Organização Mundial de Saúde (OMS); Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco); e outros setores que integram tão importante organismo internacional, estaria hoje fazendo plenamente tudo aquilo que é necessário para evitar a evolução do aquecimento global, mudanças climáticas extremas e efeitos nocivos do El Niño para o planeta e a humanidade?

O que é o El Niño

A evolução do patrimônio cientíco e tecnológico na contemporâneidade revela-se como um fato de extraordinária relavância, inclusive para que possamos ter a compreensão transparente não apenas do que é o El Niño, mas também suas causas e consequências, como ocorre na atualidade, com maior intensidade na América do Sul.

Conforme COSTA (2012, p. 72-73), cremos, amparado também nos pressupostos anteriores, deixa claro com pertinência:

Os termos El Niño e La Niña provêm do espanhol e referem-se à presença de águas quentes ou frias, respectivamente, que, todos os anos, aparecem na costa norte do Equador e Peru na época de Natal. Os pescadores desses países chamaram a esta presença de águas mais quentes de Corriente de El Niño em referência ao Niño Jesus ou Menino Jesus. Conforme Aragão (2000), as anomalias do sistema climático conhecido como El Niño e La Niña representam uma alteração do sistema oceano-atmosfera no Pacífico tropical e equatorial, tendo como consequência alterações no tempo e no clima em todo o Planeta. Essa definição considera não somente a presença das águas quentes da Corriente de El Niño, mas também as mudanças na atmosfera à superfície do oceano, com o enfraquecimento dos ventos alísios (que sopram de leste para oeste) na região equatorial. Segundo a FUNCEME (2009), com esse aquecimento do oceano e com o enfraquecimento dos ventos, observam-se mudanças na circulação atmosférica nos níveis baixos e altos, determinando alterações nos padrões de transporte de umidade e, portanto, variações na distribuição das chuvas em regiões tropicais e de latitudes médias e altas. Em algumas regiões do globo também se observa aumento ou queda de temperatura. Tecnicamente, o ENOS, ou El Niño Oscilação Sul, representa, de forma genérica, um fenômeno de interação atmosfera-oceano, relacionando alterações dos padrões normais da Temperatura da Superfície do Mar (ATSM) e dos ventos alísios na região do Pacífico Equatorial, entre a Costa Peruana e Pacifico Oeste, próximo à Austrália. Além de índices baseados nos valores da temperatura da superfície do mar no Oceano Pacífico equatorial, o fenômeno ENOS pode ser também quantificado pelo Índice de Oscilação Sul 72 O fenômeno El Niño e as secas no nordeste do Brasil (IOS) que representa a diferença de pressão ao nível do mar entre o Pacifico Central (Taiti) e o Pacifico Oeste (Darwin/Austrália). Esse índice está relacionado com as mudanças na circulação atmosférica nos níveis baixos da atmosfera, consequência do aquecimento ou resfriamento das águas superficiais na região. Valores negativos ou positivos do IOS apontam para a ocorrência de La Niña e de El Niño, respectivamente. COSTA (2012, p. 72-73)

O fenômeno climático El Niño, portanto, tem sido passível de rigorosa pesquisa, análise científica e até monitoramento por importantes institutos científicos e tecnológicos, metereológicos, em vários países, deixando evidente o valor da ciência e sua aplicabilidade, relevante e necessária. Ainda segundo COSTA (2012, p. 80-81), existe concretamente uma influência do El Niño nas secas do Nordeste, a saber:

Existe uma relação direta de causa e efeito entre o fenômeno El Niño e as secas no Nordeste do Brasil, pelo menos no prolongamento do período seco além do normal. A mudança anômala na circulação da atmosfera superior e a consequente alteração na dinâmica dos centros de altas e baixas pressões, bem como na modificação das células do ar atmosférico, constituem mecanismos que explicam a ocorrência das grandes secas no Nordeste do Brasil. Essa relação está claramente determinada e exposta no quadro 2 no qual se constata a coincidência, não fortuita, dos dois eventos. Nota-se, sobretudo, a coincidência dos fatos relativos aos eventos das grandes e devastadoras secas de 1877, 1982/3 e de 1997. Dessa maneira, o conhecimento do fenômeno das secas e a atuação reconhecida e “o previsível” do fenômeno El Niño ou La Niña configuram um quadro de uso político eleitoral/econômico do caso; uma vez que, conhecendo a atuação principalmente nas últimas décadas, seria possível tomar providências e traçar planos para a convivência com o fenômeno durante a expansão do período seco. Esse uso da seca como recurso para tirar proveito dos dramas sofridos pela população regional, sobretudo daquela mais afetada com o fenômeno, configura a tristemente famosa “indústria” da seca, mencionada por Guerra (1980) e outros como uma bem montada organização pelos grandes latifundiários nordestinos e seus aliados políticos nas diferentes esferas de poder, para desviar verbas e tirar proveito político da situação. Andrade (1985), por sua vez, enfatiza a necessidade de tratar a questão da seca não como um mito alienante e sem possibilidade de solução, e sim com o seu estudo, além do desenvolvimento de possibilidades de intervenção no quadro físico que permita a sustentabilidade da população do semiárido. A seca e a convivência com ela dependem mais do que nunca de questões técnicas e planejamento, deixando de ser uma questão de interesses políticos para se tornar o que sempre foi – um fenômeno físico que pode ser estudado, compreendido e atualmente minimizado em muitos dos seus efeitos mais danosos.

Tais pressupostos científicos são produtos do trabalho formidável realizado com bastante rigor científico e determinação por vários cientistas. Não podem ser encarados ou acolhidos como sofismas ou posturas alarmistas, como propagam os céticos e negacionistas da ciência. O El Niño precisa ser encarado tal como ele é, e suas consequências precisam ser enfrentadas, com planejamento e amplas ações concretas. Acima de tudo, coordenadas e desenvolvidas pelas instituições econômicas, políticas e sociais que integram o Estado. Aqui também, esforços e empreendimentos coletivos devem se sobrepor ao individualismo e trabalhos assistemáticos.

Como o El Niño de 2026 pode afetar a Paraíba?

Cumpre-nos ainda destacar as sistemáticas considerações abaixo evidenciadas pela pesquisadora e meteorologista Morgana Almeida, do Instituto Nacional do Semiárido (Insa), sobre os efeitos do El Niño em nosso estado:

Nos meses de agosto, setembro e outubro de 2026, praticamente não chove, pois climatologicamente já é o início do período de estiagem e de maiores temperaturas na região. O El Niño poderá potencializar esses aspectos, contribuindo para a ocorrência de dias consecutivos com temperaturas mais altas e possíveis episódios de ondas de calor. Com temperaturas acima da média, outros efeitos também podem ser sentidos no estado, como a piora da qualidade do ar e a redução dos níveis dos reservatórios. Os efeitos dessa elevação geram um efeito em cascata. A umidade relativa do ar diminui drasticamente, o que afeta a qualidade do ar ,e, consequentemente, a saúde humana e animal. Além disso, há o aumento da evaporação, fazendo com que os reservatórios percam mais água para a atmosfera. Esse aumento térmico gera pressão sobre infraestruturas importantes, como o aumento na demanda por água e por energia elétrica. Outro possível impacto, segundo a especialista, é sobre a próxima estação chuvosa prevista para o estado, entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027. Posteriormente, caso o fenômeno persista com intensidade forte ou muito forte, o impacto será sentido na qualidade da próxima estação chuvosa, que também se inicia no Sertão. O trimestre de dezembro de 2026 a fevereiro de 2027 tem alta probabilidade de estar sob a influência de um El Niño forte. ALMEIDA (2026), apud BRAGA (2026)

Opta-se pela plena concordância com as considerações acima, preconizadas pela pesquisadora e meteorologista citada anteriormente. Ao mesmo tempo que admite-se como inteiramente viável o desenvolvimento de múltiplas ações possíveis de mitigar os efeitos complexos e danosos de tal fenômeno climático também no âmbito de nosso estado. Visando uma maior e melhor compreensão deste fenômeno por parte dos leitores(as) deste modesto texto, sugere-se que vejam, possivelmente:

El Niño 2026: o que a ciência sabe e o poder público precisa fazer. Artigo de Reinaldo Dias https://ihu.unisinos.br/categorias/665996-el-nino-2026-o-que-a-ciencia-sabe-e-o-poder-publico-precisa-fazer-artigo-de-reinaldo-dias

ONU prevê El Niño muito forte; com duração até fevereiro de 2027 https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-09/onu-preve-el-nino-muito-forte-com-duracao-ate-fevereiro-de-2027

O Brasil está preparado para o El Niño 2026? Artigo de Enner Alcântara https://ihu.unisinos.br/666754-o-brasil-esta-preparado-para-o-el-nino-2026-artigo-de-enner-alcantara

O Super El Niño é um espelho do Brasil? sociologia, crise climática e desigualdades https://www.ihu.unisinos.br/categorias/666912-o-super-el-nino-e-um-espelho-do-brasil-sociologia-crise-climatica-e-desigualdades

El Niño: Nordeste recebe 47% dos investimentos do governo federal para redução de impactos https://www.diariodepernambuco.com.br/brasil/2026/09/11723159-el-nino-nordeste-recebe-47-dos-investimentos-do-governo-federal-para-reducao-de-impactos.html

Eventos extremos de precipitação nas mesorregiões da Paraíba e suas relações com a TSM dos oceanos tropicais scielo.br/j/rbmet/a/XNVSt7LxVFsFf5jLWM48mmN/?format=html&lang=pt&ilang=pt_BR

Impactos do Enos (El Niño – oscilação Sul) no potencial eólico do Nordeste Brasileiro: uma análise em condições atmosféricas com e sem a influência do Atlântico Tropical Sul https://dspace.sti.ufcg.edu.br/bitstream/riufcg/26141/1/GEMESON%20ALVES%20DA%20SILVA%20%e2%80%93%20DISSERTA%c3%87%c3%83O%20PPGMET%202021.pdf

Painel El Niño 2026-2027 Boletim Mensal N° 02 – Julho de 2026 https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/painel-el-nino-2026-2027-segundo-boletim-sobre-o-monitoramento-do-fenomeno-no-brasil-e-publicado/PainelElNino2EdioFinal.pdf

El Niño Oscilação Sul: clima, vegetação e agricultura https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1164333/1/el-nino.pdf

Referências:

ALMEIDA, Morgana, apud BRAGA, Caren. El Niño 2026: entenda como o fenômeno climático deve afetar a Paraíba. Disponível em: https://x.gd/1ZJ6d Acesso em: 06 de setembro de 2026.

COSTA, José de Araújo. O fenômeno El Niño e as secas no Nordeste do Brasil. Revista Científica do IFAL, v.1, n. 4, jan./jul. 2012, p. 72-81. Disponível em: https://x.gd/cVYNg Acesso em: 06 de setembro de 2026.

Giovanny de Sousa Lima