
O percentual de pessoas que realizam doações mensais vem caindo nos últimos anos. Foto: Reprodução / Internet
A solidariedade faz parte da vida dos brasileiros, mas transformar a doação em um hábito permanente ainda é um dos principais desafios para o fortalecimento da sociedade civil no país. Dados da Pesquisa Doação Brasil 2024, realizada pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e lançada em 2025, mostram que 43% dos brasileiros fizeram doações em dinheiro para organizações da sociedade civil (OSCs), campanhas ou grupos organizados, enquanto 50% contribuíram para situações emergenciais. O levantamento também revela que o percentual de pessoas que realizam doações mensais vem caindo nos últimos anos, indicando que, embora a solidariedade esteja presente, ela ainda é impulsionada principalmente por momentos de crise.
É justamente para incentivar essa mudança de comportamento que, todos os anos, acontece o Dia de Doar, celebrado na terça-feira seguinte à Black Friday e que, neste ano, será realizado em 1º de dezembro. Inspirado no movimento internacional #GivingTuesday (terça-feira de doação) e liderado pelo Movimento por uma Cultura de Doação (MCD), o Dia de Doar já está no calendário nacional e busca transformar a solidariedade em um hábito permanente, mobilizando indivíduos, empresas e organizações a contribuírem com causas sociais. A iniciativa reforça que qualquer pessoa pode participar e as OSCs também podem promover ações próprias, virtuais ou presenciais, para ampliar o engajamento e receber novas contribuições.
Para Vivian Fasca, diretora de Marketing e Fundraising na Plan International Brasil e integrante do Movimento por uma Cultura de Doação (MCD), o Brasil ainda está construindo uma cultura de doação. “Ainda estamos no início da curva de crescimento da doação no Brasil. O grande desafio é fazer com que doar deixe de ser uma resposta apenas às emergências e passe a fazer parte da rotina das pessoas, como um hábito permanente de cidadania”, afirma.
Segundo Vivian, fortalecer essa cultura significa incentivar que cada brasileiro escolha uma causa com a qual se identifica e contribua de forma contínua, independentemente do valor. “Toda doação importa. O importante é que ela passe a representar um compromisso das pessoas com a construção de uma sociedade mais justa, democrática e sustentável”, complementa.
Solidariedade existe, mas a doação recorrente ainda precisa crescer
Os dados mostram que a disposição para ajudar continua crescendo no Brasil, mas ainda há desafios para transformar esse comportamento em apoio contínuo às organizações sociais. Atualmente, o país ocupa a 48ª posição no ranking global de generosidade, com os brasileiros destinando, em média, 0,93% de sua renda a causas socioambientais, segundo o relatório World Giving Report 2025.
A Pesquisa Doação Brasil identificou que as situações emergenciais passaram a concentrar 30% das doações realizadas em dinheiro, mais que o dobro do registrado dois anos antes. Em contrapartida, o percentual de brasileiros que fazem doações mensais caiu para 39%, enquanto aumentaram as contribuições esporádicas e semestrais (de 8% para 12%), e os doadores pontuais chegaram a 15%.
Outro dado chama atenção: 81% das pessoas afirmam doar porque confiam na organização beneficiada, tornando a confiança o principal fator para a decisão de contribuir. Ao mesmo tempo, pela primeira vez, a falta de confiança nas organizações superou a limitação financeira como principal motivo para que as pessoas deixem de doar. A situação também aparece na terceira edição da pesquisa Retrato da Solidariedade: Comportamento Pró-Social no Brasil, do Instituto Pensi.
O estudo mostra uma retração no engajamento da população com as OSCs. O percentual de brasileiros que realizaram alguma forma de apoio — seja por meio de doações financeiras, bens ou trabalho voluntário — caiu de 58% em 2024 para 55,5% em 2025. O volume estimado de recursos destinados às OSCs também diminuiu, passando de R$ 24,86 bilhões para R$ 21,09 bilhões.
Na avaliação de Vivian, esses dados mostram uma queda da confiança nas instituições. “Vivemos uma crise de confiança que afeta diversos setores da sociedade e as OSCs também acabam sendo impactadas. Por isso, é importante que as pessoas pesquisem antes de doar. Existem milhares de organizações sérias, transparentes e comprometidas com a transformação social. Assim como pesquisamos antes de fazer uma compra pela internet, também podemos pesquisar antes de escolher para qual causa queremos contribuir”, comenta.
Organizações dependem das doações para transformar realidades
O Brasil possui cerca de 960 mil organizações da sociedade civil registradas, segundo o Mapa das OSCs. Estima-se que 500 mil atuem diretamente em causas socioambientais, promovendo ações nas áreas de educação, saúde, assistência social, combate à fome, meio ambiente, direitos humanos, infância, cultura e desenvolvimento comunitário.
Além do impacto social, o Terceiro Setor responde por mais de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, reunindo milhares de organizações que complementam políticas públicas, promovem direitos e atendem populações em situação de vulnerabilidade.
Essas instituições estão presentes em praticamente todos os municípios brasileiros e dependem, em grande parte, das doações para manter suas atividades. “São organizações que chegam onde muitas vezes ninguém mais chega. Elas desenvolvem projetos, defendem direitos, promovem inclusão, combatem desigualdades e melhoram a vida de milhares de pessoas. Mas tudo isso depende de recursos financeiros. A doação é o que permite que esse trabalho aconteça”, pontua Vivian Fasca, do Movimento por Uma Cultura de Doação.
Ela destaca que muitas organizações enfrentam dificuldades para captar recursos e, consequentemente, também encontram limitações para investir em comunicação e ampliar sua visibilidade. “É um ciclo difícil. Muitas organizações precisam de mais visibilidade para conquistar novos doadores, mas não conseguem investir em comunicação justamente porque ainda não recebem recursos suficientes”, diz Vivian Fasca.
Dia de Doar quer transformar solidariedade em hábito
O Dia de Doar busca estimular uma mudança cultural de longo prazo, mostrando que qualquer pessoa pode contribuir para transformar a realidade social brasileira. “Queremos lembrar às pessoas que doar faz bem, faz diferença e melhora a sociedade para todos nós. Não importa o valor da contribuição. O importante é entender que qualquer pessoa pode participar dessa transformação. Quando apoiamos organizações que trabalham para reduzir desigualdades, proteger crianças, preservar o meio ambiente ou combater a fome, estamos ajudando a construir um país melhor para todos”, completa Vivian.
Para a integrante do Movimento por uma Cultura de Doação, fortalecer esse hábito depende de um esforço permanente de comunicação. “Precisamos falar sobre doação durante o ano inteiro. Quanto mais esse tema estiver presente nos veículos de comunicação, nas empresas, nas organizações e nas conversas do dia a dia, mais pessoas vão compreender sua importância. Mudança cultural leva tempo, mas começa justamente quando a sociedade passa a discutir esse assunto com mais frequência”.
Para Mariana Campanatti, diretora executiva do Instituto Benera e líder do Mandato do Dia de Doar no Movimento por uma Cultura de Doação (MCD): “O Dia de Doar é uma importante campanha de comunicação e mobilização que aproxima a cultura de doação das pessoas, mostrando que todas podem contribuir, cada uma à sua maneira. Ao levar essa mensagem para o público em geral, a campanha ajuda a transformar a doação em um hábito e a fortalecer a participação de cada pessoa na construção de uma sociedade mais solidária e democrática”.
Sobre o Dia de Doar
O Dia de Doar faz parte de um movimento mundial chamado #GivingTuesday (terça-feira de doação). A iniciativa aconteceu pela primeira vez nos Estados Unidos, em 2012, e é realizada sempre na terça-feira após o Dia de Ação de Graças (Thanksgiving), uma resposta solidária à Black Friday e à Cyber Monday. No Brasil, a primeira edição foi em 2013 e, no ano seguinte, o país entrou oficialmente no movimento.
Liderado pelo Movimento por uma Cultura de Doação (MCD), o Dia de Doar é uma iniciativa que visa estimular a doação de indivíduos, empresas e organizações, e tem um papel fundamental ao mostrar que todos podem participar, fortalecendo o hábito de doar como parte do cotidiano das pessoas. Já as organizações sem fins lucrativos podem realizar ações para receber doações, virtuais ou presenciais. No site do Dia de Doar (www.diadedoar.org.br) estão disponíveis mais informações, dicas, materiais e manuais para quem quiser realizar sua própria ação de doação.
Sobre o Movimento por uma Cultura de Doação
O Movimento por uma Cultura de Doação (MCD) nasceu em 2013 para inspirar e mobilizar pessoas e organizações no propósito de enraizar a doação como parte da cultura. Sua criação se deu como uma articulação ampla, formada por pessoas e instituições que se organizam voluntariamente, de maneira horizontal, democrática e orgânica, para semear e germinar ideias para promover a doação no Brasil. Para mais informações, acesse https://doar.org.br.
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