A educação nunca foi apenas um direito. Ela é o maior patrimônio que uma sociedade pode construir. É através dela que uma criança aprende a interpretar o mundo, desenvolve senso crítico, conquista uma profissão e encontra oportunidades para transformar sua realidade. Não há país desenvolvido que tenha alcançado esse status sem colocar a educação como prioridade.
Tudo começa na primeira infância. É nesse período que são construídas as bases da aprendizagem, da convivência, da disciplina e dos valores que acompanharão o cidadão ao longo da vida. Depois vêm o ensino fundamental, o ensino médio, o ensino técnico, a graduação, as especializações, o mestrado e o doutorado. Cada etapa representa um degrau rumo ao conhecimento e à autonomia.
Entretanto, o Brasil parece caminhar na direção oposta
Vivemos uma época em que muitos jovens perderam o interesse pelos estudos. Cresce o número daqueles que abandonam a escola, não concluem o ensino médio, não buscam um curso técnico e sequer planejam ingressar no ensino superior. Em muitos casos, a ilusão do sucesso rápido nas redes sociais passou a disputar espaço com o esforço diário dos livros e da sala de aula.
É nesse contexto que se fortalece a chamada geração “nem-nem”: jovens que nem estudam e nem trabalham. Soma-se a isso a influência de modismos digitais, tendências passageiras e uma cultura que, muitas vezes, valoriza mais a aparência, a popularidade e os milhares de seguidores do que a qualificação profissional, a leitura e o conhecimento. Enquanto isso, o mercado de trabalho segue impondo sua realidade.
Quem deseja conquistar estabilidade por meio de um concurso público precisa enfrentar anos de preparação. São provas de língua portuguesa, raciocínio lógico, informática, legislação, conhecimentos específicos, redação e, para muitos cargos, diploma de curso técnico ou de nível superior. Quanto maior a responsabilidade do cargo, maior também é a exigência de qualificação.
O ensino técnico, infelizmente, ainda é pouco valorizado por grande parte da juventude, apesar de representar uma excelente porta de entrada para o mercado de trabalho. Ele forma profissionais em menos tempo, atende às demandas da economia e pode ser o primeiro passo para uma graduação. Investir em educação técnica é investir em desenvolvimento.
Também é preciso reconhecer que o debate público sobre educação tem sido marcado por polêmicas. Declarações de autoridades frequentemente repercutem nas redes sociais e, em alguns casos, acabam sendo divulgadas de forma descontextualizada, alimentando interpretações equivocadas. Independentemente do lado político, quem exerce função pública deve tratar a educação com responsabilidade, pois cada palavra influencia milhões de brasileiros, especialmente crianças e jovens.
Mas talvez a maior contradição esteja justamente na política
Para ingressar em diversas carreiras públicas, o cidadão precisa comprovar anos de estudo e formação específica. Entretanto, para disputar o cargo mais importante da República, a Constituição exige apenas os requisitos legais, entre eles ser alfabetizado. A legislação está correta ao garantir que qualquer cidadão elegível possa disputar eleições. Esse é um princípio democrático. Porém, isso não impede que a sociedade reflita sobre o perfil daqueles que pretende escolher para governar o país.
Administrar uma nação exige muito mais do que habilidade política. Exige capacidade de compreender indicadores econômicos, discutir políticas públicas, entender os desafios da saúde, da educação, da segurança, da ciência, da tecnologia, das relações internacionais e da administração pública. Exige preparo, estudo contínuo e disposição para ouvir especialistas.
Ter um diploma universitário, por si só, não garante competência, honestidade ou boa gestão. Da mesma forma, não possuir ensino superior não torna alguém incapaz de exercer um cargo público. A história mostra exemplos para os dois lados. Mas também é verdade que uma sociedade que valoriza o conhecimento deve esperar que seus líderes demonstrem apreço pelo estudo, pela qualificação e pela busca constante de aprendizado.
O Brasil precisa resgatar o respeito pela educação. Precisa incentivar suas crianças a permanecerem na escola, estimular os adolescentes a concluírem o ensino médio, fortalecer o ensino técnico e ampliar o acesso ao ensino superior. Mais do que formar profissionais, a educação forma cidadãos conscientes, críticos e preparados para enfrentar os desafios da vida. É impossível construir uma economia forte, reduzir desigualdades e promover desenvolvimento sustentável sem uma população qualificada.
Por isso, o debate vai muito além da política. Trata-se do futuro do País. Enquanto milhares de brasileiros passam anos estudando para conquistar uma vaga no serviço público, deveríamos refletir sobre o nível de preparo que esperamos daqueles que desejam comandar a maior estrutura administrativa da nação.
O voto é livre, mas também é uma escolha de responsabilidade. E talvez a pergunta que cada eleitor deva fazer seja esta: estamos escolhendo apenas quem sabe fazer campanha ou quem demonstra capacidade, preparo e compromisso para governar um país de dimensões continentais? Porque uma nação que deseja ser grande precisa colocar a educação no centro de suas decisões. E quem pretende liderá-la deve ser, antes de tudo, um exemplo de valorização do conhecimento.
Escolaridade dos candidatos a Presidência da Republica
Luiz Inácio Lula da Silva
Curso de torneiro mecânico (SENAI)
Flávio Bolsonaro
Bacharel em Direito + especializações
Ronaldo Caiado
Médico, especialista e mestre
Romeu Zema
Administração de Empresas
Augusto Cury
Médico, pós-graduação em Psiquiatria e doutorado
Aldo Rebelo
Direito (não concluiu)
Renan Santos
Direito (não concluiu)
“Ao observar o perfil dos principais presidenciáveis de 2026, percebe-se uma grande diferença na formação acadêmica. Há candidatos com ensino técnico, outros com graduação, especializações, mestrado e doutorado, enquanto alguns sequer concluíram o ensino superior. A diversidade de trajetórias demonstra que um diploma, sozinho, não garante competência para governar. Porém, também reforça um debate legítimo: em um país que exige formação técnica e universitária para milhares de cargos públicos, qual é o peso que o eleitor deve dar ao preparo intelectual e à busca pelo conhecimento ao escolher o futuro presidente da República?”.
Adriano Lourenço
