Luiz Alberto Machado e Paulo Galvão Júnior analisam aspectos geográficos, demográficos e econômicos dos países que disputam o Mundial
No próximo dia 11 de junho terá início a 23ª edição da Copa do Mundo da FIFA (Fedération Internationale de Football Association), um dos maiores eventos do esporte mundial, juntamente com os Jogos Olímpicos.
O Brasil detém dois registros relevantes: foi o único país cuja seleção participou de todas as edições da Copa do Mundo realizadas até hoje, além de ser o único a conquistar o título por cinco vezes, sendo, portanto, a única seleção pentacampeã mundial. O quadro abaixo apresenta um histórico das Copas do Mundo realizadas até agora.
Nas 22 edições realizadas até agora, tivemos 10 vencidas por países sul-americanos e 12 por países europeus. Em nenhuma delas a seleção campeã foi a do país mais populoso, de maior extensão territorial ou de maior Produto Interno Bruto (PIB), o que torna evidente que tais fatores têm tido pouca relevância no campo de jogo.
A globalização do futebol permite que um número cada vez maior de jogadores estrangeiros atue em clubes de diferentes países. Em consequência disso, observa-se um maior nivelamento das seleções, com eventual destaque para equipes de fora do eixo Europa-América do Sul. Apesar disso, pelo menos até agora, países da África, Ásia, Américas Central e do Norte e da Oceania têm sido meros coadjuvantes nos campeonatos mundiais.
A Copa de 2026
No ano de 2026, a humanidade testemunhará um acontecimento histórico no esporte internacional, a realização da primeira Copa do Mundo de Futebol sediada simultaneamente por três países, México, Estados Unidos e Canadá.
A competição ocorrerá em um cenário internacional marcado pela intensificação da guerra comercial iniciada pelos Estados Unidos, pela continuidade da Guerra entre Rússia e Ucrânia, pelos conflitos armados no Oriente Médio e por acirradas disputas tecnológicas e energéticas.
A Copa do Mundo de 2026 também será a maior da história em número de participantes, reunindo 48 seleções nacionais, distribuídas entre cinco continentes, com diferentes culturas e níveis de desenvolvimento.
Bilhões de telespectadores acompanharão os jogos por emissoras de televisão, plataformas digitais e redes sociais, enquanto milhares de turistas internacionais circularão entre modernos aeroportos, centros urbanos e 16 estádios de elevada capacidade espalhados por 16 cidades da América do Norte, sendo três mexicanas, duas canadenses e 11 norte-americanas.
Feitas essas colocações introdutórias, seguem-se algumas considerações a respeito de aspectos geográficos, demográficos e econômicos envolvendo os 12 grupos da primeira fase da Copa do Mundo de 2026.
Aspectos geográficos, demográficos e econômicos
Na sequência, cada grupo será examinado com base em três indicadores: área territorial, população total e Produto Interno Bruto (PIB) nominal.
O Grupo A, formado por México, África do Sul, Coreia do Sul e República Checa, reúne economias com estruturas produtivas distintas, envolvendo dois países industrializados e de economias emergentes, como México e África do Sul e uma nação desenvolvida e altamente integrada ao comércio internacional (Coreia do Sul). O quarto componente do grupo, a República Checa, é um país de sólida tradição industrial, destacando-se pela forte indústria automotiva, pelo desenvolvimento tecnológico, pela atividade mineradora, pela competitividade de suas exportações e por sua relevante inserção geopolítica na Europa Central.
Em termos futebolísticos, destaque para a antiga Tchecoslováquia, que conquistou por duas vezes o vice-campeonato mundial, em 1934 e 1962, ano em que foi derrotada na final pela seleção brasileira, pelo placar de 3 a 1, no Chile. Na Copa de 2026, porém, a seleção mexicana, por fazer dois dos três jogos no Estádio Azteca, surge com favorita para conquistar a primeira vaga no grupo, ficando a outra vaga para ser disputada pelos demais componentes.
O Grupo B, composto por Canadá, Bósnia e Herzegovina, Catar e Suíça, reúne economias avançadas, países exportadores de energia e economias em processo de modernização produtiva. O grupo apresenta forte contraste entre área territorial, população total e PIB nominal, além de desenvolvimento tecnológico, estrutura energética e competitividade internacional. O grupo tem o menor contingente populacional desta Copa e a segunda maior área territorial.
Nenhum dos integrantes do grupo possui tradição no futebol mundial, de tal forma que seria surpreendente a classificação de qualquer dessas seleções para as fases finais da competição. Já para a etapa seguinte, a possibilidade se amplia graças ao novo formato do torneio, no qual os oito melhores terceiros colocados também avançarão para a inédita fase de 16 avos de final.
O Grupo C, formado por Brasil, Escócia, Haiti e Marrocos, apresenta elevada diversidade econômica e geopolítica, reunindo uma potência continental sul-americana, uma economia africana emergente, uma nação caribenha vulnerável e um importante centro energético e financeiro europeu.
Futebolisticamente falando, o Brasil se sobressai como o único país pentacampeão do mundo, além de ter conquistado o vice-campeonato em 1950 e 1998. O desempenho recente da seleção brasileira, porém, está muito aquém do potencial demonstrado historicamente, razão pela qual muitos analistas − nacionais e estrangeiros − têm hesitado em considerá-la uma das favoritas para a conquista do hexacampeonato mundial. A seleção marroquina, com desempenho surpreendente em recentes competições, surge como favorita para conquistar a segunda vaga do grupo, devendo disputá-la com a combativa seleção escocesa que se caracteriza, sobretudo, pela eficiência defensiva.
O Grupo D, composto por Estados Unidos, Austrália, Paraguai e Turquia, reúne a economia mais poderosa do mundo, uma grande potência continental, a Austrália, um país instável politicamente, situado em parte na Europa, em parte na Ásia, a Turquia, e o sul-americano Paraguai. Além da guerra tarifária iniciada pelos Estados Unidos, há entre os integrantes do grupo disputas relacionadas à agricultura, energia, defesa, tecnologia, logística e comércio internacional.
Vale destacar que o Grupo D é o que reúne países de maior área territorial, mais populoso e mais rico entre os 12 grupos da Copa do Mundo de 2026.
A exemplo do que ocorre no grupo B, nenhum dos integrantes do grupo possui tradição no futebol mundial, de tal forma que a classificação de qualquer dessas seleções para as fases finais da competição seria uma autêntica zebra.
O Grupo E, composto por Alemanha, Costa do Marfim, Curaçao e Equador, reúne uma das maiores potências industriais do planeta, economias emergentes exportadoras de commodities e um pequeno território caribenho fortemente dependente do turismo e dos serviços.
Futebolisticamente, a Alemanha, tetracampeã mundial e quatro vezes vice-campeã, aparece como grande favorita para se classificar em primeiro lugar no grupo, ficando a segunda vaga entre Equador e Costa do Marfim.
Vale destacar que, caso o Curaçao venha a se classificar para a próxima fase Copa do Mundo, isso representaria um feito histórico, pois se tornaria o menor país a obter essa conquista, além de servir como vitrine para divulgar suas belas e ensolaradas praias do Mar do Caribe.
O Grupo F, formado por Países Baixos, Japão, Suécia e Tunísia, é considerado um dos mais sofisticados economicamente da competição no ano de 2026, reunindo três economias desenvolvidas e tecnologicamente avançadas, além de uma importante economia emergente do norte da África, a Tunísia.
Em termos futebolísticos, os Países Baixos emergem como grande força do grupo, uma vez que, ainda com a denominação de Holanda, conquistou o vice-campeonato em 1974 (quando apresentou ao mundo o futebol total, numa equipe liderada pelo lendário Johan Cruyff), 1978 e 2010. A Suécia, que também obteve o vice-campeonato quando sediou o mundial em 1958, mas que tem tido um desempenho pífio nos últimos anos, deverá disputar a segunda vaga contra Japão e Tunísia, cujas seleções vêm apresentando uma performance cada vez melhor.
O Grupo G, constituído por Bélgica, Egito, Irã e Nova Zelândia, reúne economias com diferentes níveis de desenvolvimento, combinando duas economias desenvolvidas e altamente institucionalizadas, Bélgica e Nova Zelândia, com duas importantes economias emergentes do Oriente Médio e do norte da África, respectivamente Irã e Egito.
O grupo apresenta disputas relacionadas à logística internacional, energia, comércio marítimo, estabilidade institucional, recursos naturais, segurança geopolítica e inserção nas cadeias globais de valor.
A seleção belga aparece como favorita destacada para conquistar o primeiro lugar no grupo, ficando a segunda vaga (e eventualmente uma terceira) para ser disputada por Egito, Irã e Nova Zelândia.
O Grupo H, composto por quatro economias com perfis geoeconômicos distintos, como Espanha, Cabo Verde, Arábia Saudita e Uruguai, apresenta um contraste estrutural entre uma economia europeia altamente diversificada (Espanha), uma economia sul-americana agroexportadora com forte estabilidade institucional (Uruguai), uma potência energética do Oriente Médio (Arábia Saudita) e uma pequena economia insular africana em desenvolvimento (Cabo Verde).
A Espanha, que conquistou o mundial em 2010 na África do Sul e que possui um dos campeonatos mais badalados do mundo, com destaque para Real Madrid e Barcelona, surge como principal força do grupo. O Uruguai, bicampeão do mundo em 1930 e 1950, é o favorito para conquistar a segunda vaga.
O Grupo I, formado por França, Iraque, Noruega e Senegal, apresenta dois países europeus desenvolvidos, a França e a Noruega, além de duas nações de economia emergente, uma do Oriente Médio (Iraque) e outra africana (Senegal).
A França tem se destacado como uma das principais seleções do mundo nos últimos tempos, conquistando o título mundial em 1998 e 2018 e o vice-campeonato em 2006 e 2022. Pelo bom desempenho recente de sua seleção e de seu principal clube, o Paris Saint-Germain (PSG), a França vem sendo apontada como favorita não apenas para conquistar o primeiro lugar no grupo, mas também para disputar a final da competição em 19 de julho no MetLife Stadium, em Nova Jersey.
A Noruega, que possui em sua equipe o astro Haaland, artilheiro da Premier League jogando pelo Manchester City, deverá lutar pela segunda vaga com o Senegal, uma das principais seleções do continente africano.
O Grupo J formado por Argentina, Argélia, Áustria e Jordânia, apresenta uma característica geoeconômica relevante, pois reúne economias localizadas em quatro diferentes espaços estratégicos da economia mundial, norte da África, América do Sul, Europa Central e Oriente Médio, conectando recursos energéticos, produção agroindustrial, logística euro-mediterrânea e integração aos mercados internacionais.
O grupo combina uma economia europeia altamente desenvolvida, a Áustria; uma importante potência agroexportadora sul-americana, a Argentina; uma potência energética do norte da África, a Argélia; e uma economia do Oriente Médio marcada por limitações hídricas e forte dependência externa, a Jordânia.
Tricampeã do mundo em 1978, 1986 e 2022 e vice-campeã em 1930, 1990 e 2014, além de contar em seus quadros com Lionel Messi, há anos um dos melhores jogadores do mundo, a Argentina pretende manter o título conquistado na última edição da Copa do Mundo no Catar, sendo naturalmente a favorita para obter a primeira vaga no grupo, ficando a segunda provavelmente entre Áustria e Argélia.
O Grupo K, formado por Portugal, Colômbia, República Democrática do Congo (RDC) e Uzbequistão, é um dos mais diversificados geoeconomicamente desta Copa, reunindo economias provenientes de quatro diferentes regiões estratégicas do planeta: Europa Ocidental, América do Sul, África e Ásia Central.
O grupo combina diferentes modelos de desenvolvimento, estruturas produtivas, níveis de industrialização e formas de inserção internacional, refletindo importantes contrastes entre uma economia integrada à União Europeia (UE), países exportadores de commodities minerais e energéticas, além de uma economia latino-americana em processo de modernização produtiva.
A presença de Portugal, Colômbia, Uzbequistão e Congo transforma o Grupo K em um espaço de comparação entre infraestrutura europeia, riqueza mineral africana, expansão energética da Ásia Central e diversificação econômica sul-americana.
Pelo bom desempenho de sua seleção nas últimas competições e por contar com Cristiano Ronaldo em seu ataque, considerado, juntamente com o argentino Lionel Messi, um dos melhores jogadores deste início de século, Portugal surge como favorito à conquista da primeira vaga do grupo, mas deve tomar muito cuidado, uma vez que a Colômbia e a República Democrática do Congo possuem seleções que vêm evoluindo bastante, e não se pode esquecer o Uzbequistão, que pretende correr por fora, surpreendendo os favoritos.
Por fim, o Grupo K é o mais pobre desta Copa, com PIB nominal médio de apenas 214 bilhões de dólares, contribuindo decisivamente para isso a presença da República Democrática do Congo (RDC), que vem recentemente ocupando as manchetes de todo o mundo em razão do surto de ebola, identificado originalmente na região Leste do país africano, fato que vem sendo monitorado de perto não só pelos dirigentes da FIFA, mas também pelos responsáveis da Organização Mundial da Saúde (OMS).
O Grupo L reúne um conjunto heterogêneo de economias que combina potências históricas, economias emergentes e países com forte especialização em serviços estratégicos, refletindo diferentes estágios de desenvolvimento e formas de inserção na economia global contemporânea.
O grupo contém uma economia altamente influente no sistema financeiro internacional e na geopolítica global (Inglaterra), uma economia europeia consolidada e integrada à UE (Croácia), uma economia africana em desenvolvimento baseada em commodities (Gana), e uma economia centro-americana fortemente orientada à logística e aos serviços internacionais (Panamá).
A presença desses quatro países transforma o Grupo L em um espaço de análise comparativa entre finanças globais, integração regional europeia, exportação de recursos primários e economia de serviços logísticos estratégicos, com destaque para o Canal do Panamá.
A Inglaterra, que possui na Premier League a mais valorizada competição nacional, e que foi campeã mundial em 1966, surge como favorita para obter o primeiro lugar no grupo. A Croácia, vice-campeã em 2018, aparece como a segunda força, devendo disputar vaga com as seleções de Gana e do Panamá.
Nossa intenção, neste artigo, não é o de estabelecer qualquer correlação entre desempenho futebolístico e os três indicadores considerados – área territorial, população total e PIB nominal. Até porque, não acreditamos que possam ser apontados.
Isso faz do futebol, no mínimo, uma modalidade bastante democrática, uma vez que as seleções dos dois países mais populosos do mundo, Índia e China, não obtiveram classificação para a Copa do Mundo. Além disso, a China, que rivaliza com os Estados Unidos como a maior potência econômica do mundo, não possui posição destacada no ranking do futebol mundial nem entre seleções nem entre clubes.
A Rússia, que desde os tempos de União Soviética possui equipes e seleções de certa relevância, está afastada da Copa do Mundo, assim como de competições esportivas de outras modalidades, como retaliação pela invasão da Ucrânia.
Vale ressaltar também que a Itália, tetracampeã mundial e duas vezes vice-campeã, não conseguiu se classificar, ficando fora da Copa do Mundo pela terceira vez consecutiva.
Nosso principal objetivo é apenas indicar algumas características interessantes envolvendo os 48 países participantes da 23ª edição da Copa do Mundo da FIFA, que terá início no dia 11 de junho próximo, com a partida entre as seleções do México e da África do Sul, no Estádio Azteca, na Cidade do México, de grata memória para nós brasileiros, pois foi lá que a seleção brasileira alcançou o tricampeonato mundial, conquistando definitivamente a Taça Jules Rimet. Outra observação interessante é que será apenas a quarta vez em que a partida de abertura não conta com a presença de pelo menos uma seleção campeã do mundo e, seguramente, a segunda vez que não conta, ao menos, com uma das seleções do primeiro escalão do futebol mundial.
Aguardemos o encerramento da fase de grupos, quando faremos um novo artigo analisando o desempenho futebolístico das seleções desses 48 países e uma projeção da continuidade da Copa do Mundo de 2026.
Luiz Alberto Machado e Paulo Galvão Júnior, economistas.

