Na semana passada os países da União Europeia (UE) confirmaram a aprovação do acordo comercial com o Mercosul (Mercado Comum do Sul), organização intergovernamental regional sulamericana, constituindo-se na maior zona de livre comércio do mundo. Tal acordo, realmente é um marco histórico, por ser detentor de grande, estratégica, utilitária e fundamental importância para os países e povos que integram a União Europeia e América do Sul, gerando possibilidades reais de investimentos, transformações, inovações, desenvolvimento, para estas duas esferas da geopolítica mundial.
Conforme o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), celebrando a aprovação do mencionado acordo, deixou evidente que foi um “dia histórico para o multilateralismo. Após 25 anos de negociação, foi aprovado o Acordo entre Mercosul-União Europeia, um dos maiores tratados de livre comércio do mundo. A decisão chancelada pelo lado europeu une dois blocos que, juntos, somam 718 milhões de pessoas e um PIB de US$ 22,4 trilhões”.
Já a professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Regiane Bressan, avalia que uma das mudanças mais perceptíveis deve atingir diretamente o consumidor: a maior presença de produtos tradicionais da União Europeia no mercado brasileiro:
A integração em um acordo como esse tende a favorecer sobretudo os consumidores finais, que passam a ter acesso a produtos mais baratos. Isso ocorre dos dois lados”, afirma Bressan.O objetivo do tratado é facilitar as trocas comerciais entre os 27 países da União Europeia e os quatro países do Mercosul — Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai —, reduzindo tarifas alfandegárias tanto sobre produtos europeus vendidos no Brasil quanto sobre produtos do Mercosul exportados para a Europa. O acordo abrange um mercado de 720 milhões de consumidores — 450 milhões na Europa e 270 milhões na América do Sul —, o equivalente a cerca de 25% do PIB global. Estimativas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indicam que o Brasil deve ser o principal beneficiado pelo acordo. Até 2040, a assinatura poderia elevar o Produto Interno Bruto (PIB) nacional em 0,46%, crescimento superior ao projetado para a União Europeia e para os demais países do Mercosul. (COLAÇO, 10/01/2026)
Tenho a compreensão que após 25 anos de intensas negociações, bem como impasses, inerentes a esses.O acordo vai promover e ampliar, potencialmente, o fluxo de marcadorias entre os dois blocos. Diminuirá a dependência comercial de países da América do Sul e União Europeia em relação, principalmente, aos Estados Unidos, o que é imprescindível na conjuntura internacional vigente, além de fortalecer a democracia dos países integrantes deste acordo. Ainda há possibilidades alvissareiras de maiores e melhores investimentos da União Europeia na indústria, agricultura, ciência e tecnologia, dos países do continente sulamericano, componentes do acordo citado.
É preciso destacar que após a aprovação provisória, pelo Comitê de Representantes Permanentes (Coreper), órgão composto pelos embaixadores dos Estados-Membros da UE, houve a formalização dos votos para aprovação do acordo. Haverá, por conseguinte, a necessidade de realização de novos desdobramentos para o aperfeiçoamento e consolidação de tal acordo, ainda este mês, envolvendo inúmeras autoridades dos dois blocos. A assinatura do acordo, prevista para o próximo dia 17, não significa que o mesmo passe a valer imediatamente. Após este período, o tratado seguirá para o processo de ratificação interno.
O tratado produzirá uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, ligando os dois blocos em um mercado de 700 milhões de pessoas. Para o Mercosul, o Brasil tem papel central: precisa comprovar avanços em sustentabilidade e controle ambiental para facilitar a ratificação e ampliar o acesso ao mercado europeu. Vê-se, portanto, a formulação deste acordo está embasada em critérios rigorosos e procedimentos muito bem sistematizados pelos países envolvidos.
O acordo cria ainda obrigações legais dentro de cada país do Mercosul, como: redução de tarifas, mudança nas regras comerciais e compromissos regulatórios, os quais poderão afastar o receio atual de produtores de vinho do Rio Grande do Sul, que já temem a exportação para o Brasil de vinhos infinitamente mais baratos do que os produzidos nacionalmente. Um outro aspecto ainda a destacar, em relação a nossa economia, é que:
Para o Brasil, maior economia do Mercosul, o tratado amplia o acesso a um mercado de cerca de 451 milhões de consumidores e gera impactos que vão além do agronegócio, alcançando também diversos segmentos da indústria brasileira. O vice-presidente Geraldo Alckmin, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, celebrou a aprovação do acordo. Segundo ele, cerca de 30% dos exportadores brasileiros vendem produtos para países da UE, o que corresponde a aproximadamente 9 mil empresas. Este acordo fortalece o multilateralismo, o comércio entre os dois blocos, comércio com regras, promove investimentos, devemos ter mais investimentos europeus no Mercosul, fortalece a sustentabilidade, porque o Brasil assume compromisso de combate às mudanças climáticas. É ganha-ganha. Produtos mais baratos e de melhor qualidade. (G1, 09/01/2026)
No contexto de uma conjuntura internacional, claramente, marcada pela hegemonia dos Estados Unidos, China, Rússia e demais integrantes do G7 (grupo dos sete países mais ricos do mundo), práticas exacerbadas de protecionismo e amplas pressões econômicas feitas pelo imperialismo norte americano, como ocorreram com o Brasil no ano de 2025 (e o mais grave, resgate de paradigmas da Doutrina Monroe e política de “Big Stick”; intervencionismo promotor da violação da soberania, do princípio da autodeterminação dos povos e de outras leis do Direito Internacional, consagradas, inclusive, pela ONU; vem sendo, deliberadamente, realizado pelo governo do presidente Donald Trump).
Neste sentido, é fundamental que possamos celebrar este acordo entre o Mercosul e União Europeia, como algo muito positivo para os povos destes dois continentes. Quanto mais nos unirmos para salvaguardar, defender, proteger e promover nossos interesses econômicos, financeiros e riquezas, melhor será. Isso não impede as dificuldades intencionalmente planejadas e executadas contra as economias do Mercosul e União Europeia por parte dos Estados Unidos da América, mas já constitui-se em avanço significativo.
Objetivando ilustrar, reforçar, a compreensão dos leitores(as) deste texto, destaco a seguir as brilhantes considerações, resultantes de fecundo trabalho, sistemático, elaborado por JUNIOR & DIZ, 2019, p. 19-20, assim expressa:
Finalmente, depois de 20 (vinte) anos de negociações foi anunciado oficialmente, a firma do acordo entre a União Europeia e Mercosul,comemorado efusivamente, pelo governo brasileiro. Durante o processo negocial diversos impasses foram surgindo, principalmente, devido aexistência defortesassimetrias entre ambas asregiões, em que pese à histórica e estreita conexão da Europa com a América do Sul e o seu peso como parceiro comercial para os países daregião.Embora tenham sidoanunciados os termos finais para o acordo, deve lembrar-seque há um complexo caminho paraa ratificação e vigência do mesmo, ao passo que setores europeus já manifestam a sua desconfiança e a tendência de obstaculizar e/ouimpedir a entrada em vigor do referido acordo. Afinal, ao longo das negociações sempre ficou claro que enquanto os países doMercosultinham interesse em liberalizar o comércio de seus produtos agropecuários, no mercado europeu os produtores semantemreceosos quanto ao efeito do Acordo sobrea indústria regional. Para os europeus sempre houve a intenção de abrirmercado para seus bens industriais, mas com temor de produzir perda comercial para o seu setor agropecuário, sabidamente, subsidiado pela PAC. Por outro lado, sabe-se que estadospossuem interesses relacionadoscom o desenvolvimentonacionaleas diretrizes de política exterior. Com esse intuito,ossetores econômicos e políticos nacionais,notadamente a agroindústria,desenvolveram um discurso voltado para aliberalizaçãoeconômica e para as reformasestruturais, visando gerar competitividadeno mercado interno e produtividade para osetorexportador, construindo uma retórica que influenciasse inclusive o processo legislativo. Da mesma forma,osetor agropecuário europeu seguea mesma orientação, evem se manifestando no sentido de pressionar politicamente osparlamentos nacionaise europeu para impedira posteriorratificação do acordo. Além das pressões internas de grupos de interesses nos países europeus,acresce-se no cenário internacionala guerra comercial sino-americana diante do unilateralismo norte-americano e as futuras eleições presidenciais nos Estados Unidos, bem como as eleições para osparlamentos nacionais na Europa colocam a concretização futura do acordo Mercosul-UniãoEuropeia sob um caleidoscópio de variáveis, o que dificulta a previsão de um desfecho preciso para a questão. E,também, as escolhas políticas manifestadas pelo governo brasileiro podem colocar o país em rota de colisão com a efetiva ratificação do acordo, principalmente, no que concerneas questões socioambientais e trabalhistas. (JUNIOR & DIZ, 2019, p. 19-20)
Deixo claro que este modesto texto não tem a pretensão de dar conta, amplamente, da grandeza, importância, complexidade, e dos futuros desdobramentos que haverão de continuar sendo construídos para o desenvolvimento deste acordo histórico – envolvendo o Mercosul e União Europeia – mas, simplesmente, elucidar o estratégico significado teórico-prático para os setores envolvidos, principalmente o nosso país, mesmo considerando que tudo é feito e continuará sendo efetivado nos marcos de economias liberais nos próximos anos ou décadas.
Abraço fraterno a todos e todas!
Referências:
COLAÇO, Janize. Do vinho aos medicamentos: como o acordo UE-Mercosul deve afetar o bolso dos brasileiros? G1, São Paulo, 10/01/2026. Disponível em: https://x.gd/a4aBLAcesso em: 11/01/2026.
JUNIOR, Joaner Campello de Oliveira e DIZ, Jamile Bergamaschine Mata. Análise do acordo Mercosul-União Europeia sob a sua perspectiva histórica negocial: o papel dos atores não estatais no Brasil. Revista Brasileira de Direito Internacional. 2019, p. 19-20. Disponível em: https://x.gd/BRSZ3Acesso em: 11/01/2026.
REDAÇÃO G1. UE aprova acordo com o Mercosul, que formará maior zona de livre comércio do mundo. G1, São Paulo, 09/01/2026. Disponível em: https://x.gd/5fckWAcesso em: 11/01/2026.
Giovanny de Sousa Lima
