Entre discursos oficiais e estatísticas alarmantes, milhares de brasileiros seguem dormindo nas ruas. Foto: PicWish

A população em situação de rua no Brasil continua crescendo em ritmo preocupante. Segundo dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, vinculado à UFMG, o país já ultrapassa a marca de 335 mil pessoas vivendo sem moradia fixa. São homens, mulheres, idosos e até famílias inteiras que transformaram calçadas, praças e marquises em abrigo diante da incapacidade do Estado de oferecer condições mínimas de dignidade.

Mais do que números, trata-se de uma realidade que escancara o fracasso de sucessivos governos e a ineficiência de políticas públicas que raramente saem do papel. Há décadas, gestores anunciam programas sociais, planos habitacionais e ações de acolhimento. Entretanto, basta caminhar pelas ruas de qualquer cidade para perceber que o problema não apenas permanece, mas se agrava a cada ano.

Na minha visão, o crescimento da população em situação de rua é uma das maiores demonstrações da hipocrisia institucional brasileira. Enquanto autoridades disputam espaço em palanques para anunciar obras milionárias, festividades grandiosas e investimentos de impacto eleitoral, milhares de cidadãos seguem abandonados à própria sorte. Não faltam discursos sobre inclusão social; falta compromisso real para enfrentar as causas da exclusão.

O poder público frequentemente limita sua atuação à retirada temporária dessas pessoas das áreas centrais ou à oferta de abrigos emergenciais que, embora necessários, não representam solução definitiva. A reinserção social exige emprego, qualificação profissional, atendimento à saúde mental, combate à dependência química quando existente e, principalmente, acesso à moradia. Sem isso, qualquer ação torna-se apenas uma medida paliativa para esconder o problema dos olhos da sociedade.

Outro aspecto que merece reflexão é a seletividade da indignação pública. Muitos reclamam da presença de pessoas em situação de rua nas praças e avenidas, mas poucos questionam os motivos que levaram essas pessoas até ali. É mais fácil condenar quem perdeu tudo do que cobrar dos governantes a implementação de políticas capazes de impedir que novos brasileiros cheguem à mesma condição.

Também chama atenção a contradição de um país que convive com milhares de imóveis vazios enquanto cresce o contingente de cidadãos sem teto. O contraste revela que a crise habitacional brasileira não decorre apenas da falta de recursos, mas da ausência de prioridade política. Quando há interesse, recursos aparecem rapidamente para projetos considerados estratégicos. Quando o assunto é moradia popular, o discurso quase sempre supera a ação.

A verdade é que ninguém escolhe dormir em uma calçada sob chuva, frio, violência e insegurança. A rua costuma ser o último estágio de uma sequência de perdas: emprego, renda, vínculos familiares e esperança. Ignorar essa realidade é aceitar que parte da população seja tratada como descartável.

Enquanto o País continuar normalizando cenas de seres humanos vivendo entre papelões e sacolas nas esquinas das cidades, qualquer discurso sobre desenvolvimento, justiça social ou progresso permanecerá incompleto. Uma nação não pode ser considerada verdadeiramente desenvolvida quando milhares de seus cidadãos sobrevivem sem teto, sem proteção e sem perspectivas, observados diariamente por uma sociedade que se acostumou a passar por eles sem enxergá-los.

“A situação de rua não é apenas um problema social. É a prova diária de que o Estado falha quando permite que cidadãos percam até mesmo o direito de existir com dignidade. O abandono não está nas calçadas; está na ausência de vontade política para mudar essa realidade.”

Adriano Lourenço