A eleição acabou. O segundo turno não veio. E a pergunta que ficou, principalmente depois do resultado em João Pessoa, é direta: o que aconteceu com Cícero Lucena?
Conspiração? Traição política? Erro de estratégia? Ou simplesmente uma eleição em que as urnas disseram algo diferente daquilo que parte do ambiente político esperava?
Cícero terminou o primeiro turno em terceiro lugar, com 11,6% dos votos válidos, atrás de Efraim Filho, que obteve 24,18%, e de Lucas Ribeiro, reeleito governador com 64,30%.
O resultado contrariou a expectativa de quem ainda trabalhava com a possibilidade de uma segunda rodada entre os principais candidatos. Mas as pesquisas da reta final já apresentavam um cenário menos favorável a Cícero. Na Quest realizada nos dias 2 e 3 de outubro, Lucas aparecia com 52%, Efraim com 19% e Cícero com 13% das intenções de voto.
Ainda assim, foi João Pessoa que produziu uma das imagens mais fortes dessa eleição.
Cícero foi prefeito da Capital, deixou a prefeitura para disputar o Governo do Estado e construiu durante anos uma rede política na cidade. Mesmo assim, não conseguiu transformar esse histórico em liderança eleitoral na própria Capital.
E aqui começa uma pergunta que merece ser feita.
Onde estavam os votos da estrutura política construída durante os anos de prefeitura?
Onde estavam os vereadores que declararam apoio ao ex-prefeito?
E aqueles votos que, durante a campanha, eram tratados como parte da estrutura capaz de levar Cícero ao segundo turno?
Não se pode transformar essas perguntas em acusação sem provas. Mas também não se pode ignorar o resultado.
A política trabalha com números. E os números desta vez foram desfavoráveis a Cícero.
Mas existe outra pergunta que precisa entrar nessa análise: e o marqueteiro?
Será que a estratégia de comunicação adotada pela campanha foi adequada ao momento eleitoral?
Essa não é uma pergunta sobre culpa. É uma pergunta sobre estratégia.
Uma candidatura com a trajetória de Cícero Lucena precisava apresentar ao eleitor uma razão clara para escolhê-lo naquele momento. Experiência, cargos ocupados e história política fazem parte de uma biografia, mas não necessariamente funcionam como mensagem eleitoral.
Durante a campanha, Cícero repetiu argumentos relacionados à experiência, à gestão e à sua trajetória política. A pergunta é se essa comunicação conseguiu criar uma identidade eleitoral capaz de diferenciá-lo dos adversários.
Porque o eleitor não vota em currículo.
O eleitor vota em uma proposta, em uma identificação, em uma expectativa ou, muitas vezes, naquilo que entende ser melhor para o momento.
E pode existir aí um dos pontos que a campanha precisará avaliar.
Será que o discurso ficou repetitivo?
Será que faltou uma mensagem nova na reta final?
Será que a comunicação não conseguiu transformar a experiência de Cícero em uma proposta capaz de mobilizar o eleitor?
Ou será que, nos últimos dias, aconteceu aquilo que ninguém consegue medir completamente?
O eleitor chegou à urna e pensou: “É melhor mudar de lado porque a oferta está sendo melhor.”
Essa é uma possibilidade política, não uma conclusão.
E a força dessa hipótese está justamente no resultado.
Do outro lado, Efraim Filho conseguiu terminar em segundo lugar. Durante os debates, apresentou propostas e adotou, em determinados momentos, uma comunicação mais contida. Enquanto isso, Cícero carregava o peso de uma trajetória longa na política paraibana.
A eleição mostrou que experiência e estrutura não significam transferência automática de votos.
E existe ainda outro personagem nessa história: Léo Bezerra.
Em junho, o prefeito de João Pessoa dizia publicamente que apoiaria Cícero e que sua base estaria alinhada ao projeto do ex-prefeito. Na ocasião, chegou a afirmar: “campanha de Cícero é a campanha de Léo”.
Mas a política mudou de direção.
Em agosto, Léo Bezerra anunciou, juntamente com sua base de vereadores, apoio a Nabor Wanderley para o Senado. A articulação foi apresentada publicamente também como parte de um entendimento relacionado ao projeto de reeleição do prefeito em 2028.
Cícero, na época, adotou tom conciliador e disse respeitar a independência política de Léo.
Portanto, mais do que falar em “silêncio” de Léo, existe um fato político concreto: o apoio que começou alinhado a Cícero sofreu uma mudança de rota durante a própria eleição.
E isso merece ser analisado.
Porque Léo não estava sozinho.
Havia vereadores, lideranças comunitárias e integrantes da base municipal envolvidos na campanha. Em setembro, por exemplo, eventos do chamado Movimento 15 foram organizados por vereadores e lideranças que declaravam apoio a Cícero e ao projeto político apresentado ao eleitor.
Mas também houve mudança de posição dentro da Câmara.
O vereador Guga Moov Jampa, por exemplo, deixou o grupo de Cícero e declarou apoio a Lucas Ribeiro. Léo Bezerra, ao comentar a decisão, disse que respeitava a escolha do vereador e que havia tentado mantê-lo ao seu lado.
E aí aparece uma questão ainda mais delicada.
Durante uma eleição estadual, vereadores que também disputam seus próprios projetos eleitorais podem dividir sua atenção entre a candidatura majoritária e suas próprias campanhas para deputado estadual ou federal.
Isso não significa afirmar que abandonaram Cícero.
Mas significa perguntar: quanto da estrutura política estava realmente dedicada à candidatura ao Governo e quanto estava concentrada na sobrevivência eleitoral de cada liderança?
Essa pergunta precisa ser respondida pelos próprios atores políticos.
Porque, na política, apoiar é uma coisa.
Transferir votos é outra.
E garantir que uma estrutura política trabalhe efetivamente por uma candidatura é outra completamente diferente.
Talvez esteja aí parte da explicação para o que aconteceu.
Ou talvez não.
Mas a urna deixou uma informação impossível de ignorar: a força política de Cícero em João Pessoa não se converteu no resultado que sua candidatura precisava.
E isso também atinge a família.
Mersinho Lucena, filho de Cícero, não conseguiu renovar o mandato de deputado federal e terminou como suplente.
Para uma família que possui uma trajetória extensa na política paraibana, o resultado representa um novo momento.
E a pergunta agora é: o que vem depois?
Cícero ficará fora de um mandato eletivo.
Mersinho também não estará, neste momento, entre os titulares da bancada federal.
Léo Bezerra permanece com a Prefeitura de João Pessoa e já tem 2028 no horizonte.
E, a partir daí, a política começa novamente a fazer aquilo que sabe fazer melhor: conversar nos bastidores.
Será que os Ribeiro e os Bezerra estarão juntos?
Será que haverá uma nova composição?
Não há, neste momento, elementos públicos suficientes para afirmar que exista algum acordo secreto entre esses grupos. O que existe são movimentos políticos registrados, mudanças de apoio e interesses eleitorais que naturalmente passam a mirar 2028.
E 2028 pode trazer uma disputa completamente diferente.
Novos nomes podem aparecer.
Parlamentares podem entrar na disputa.
Grupos que hoje estão juntos podem se separar.
Grupos que hoje estão separados podem voltar a conversar.
É cedo para dizer quem estará de cada lado.
Mas não é cedo para observar os movimentos.
A eleição de 2026 deixou uma lição importante para todos os grupos políticos da Paraíba: pesquisa não é urna, avenida cheia não é voto e apoio declarado não significa necessariamente transferência de eleitor.
Cícero tinha história.
Tinha experiência.
Tinha estrutura.
Tinha aliados.
Tinha uma campanha.
Mas tinha também um desafio: convencer o eleitor de que toda essa trajetória representava o melhor caminho naquele momento.
E a urna respondeu.
Agora caberá ao próprio grupo analisar onde a estratégia funcionou, onde não funcionou e, principalmente, se o problema esteve na mensagem, na estrutura política, na articulação ou na combinação de todos esses fatores.
Conspiração ou traição?
Talvez a resposta não esteja em Judas.
Talvez esteja na urna.
Porque, entre o palanque e o voto, existe uma distância que nenhuma estrutura política consegue controlar completamente.
E foi exatamente nessa distância que Cícero Lucena perdeu a eleição.
Adriano Lourenço

