Déficit nas forças de segurança coloca em xeque o discurso eleitoral sobre investimentos e revela um problema que vai além das viaturas

Segurança pública foi um dos assuntos presentes no primeiro debate entre os candidatos ao Governo da Paraíba. E um dos discursos chamou atenção ao destacar uma polícia equipada, com armamentos, coletes balísticos, viaturas e fardamentos novos. Tudo isso é importante. Mas existe uma pergunta que não pode ficar de fora: e o efetivo?

Porque não adianta ter viatura nova se não houver policiais suficientes para colocá-la nas ruas. Não adianta ter armamento moderno se faltam homens e mulheres para fazer o patrulhamento. E não adianta apresentar uma estrutura operacional cada vez melhor se o profissional que está na ponta continua enfrentando problemas de remuneração.

Um levantamento sobre a segurança pública mostra que a Paraíba tinha, em 2025, 10.309 policiais militares na ativa para um efetivo previsto de 18.935. Isso significa apenas 54,4% do quadro previsto. E o problema também aparece na Polícia Civil, responsável pela investigação e pela polícia judiciária. São apontados 2.169 policiais para um quadro previsto de 6.300, aproximadamente 34,4% do efetivo.

E aqui está uma questão que precisa entrar de verdade na campanha eleitoral: como combater o crime organizado com forças de segurança que ainda trabalham abaixo do efetivo previsto? Porque a criminalidade também mudou. A Paraíba convive com investigações envolvendo organizações criminosas e disputas territoriais entre grupos como o Comando Vermelho e a Okaida/Nova Okaida, com investigações apontando atuação em diferentes municípios paraibanos.

Não estamos falando apenas de pequenos grupos espalhados. Estamos falando de organizações que disputam território, movimentam dinheiro, distribuem drogas e criam redes de atuação. E para enfrentar isso, não basta equipamento. É necessário efetivo, inteligência, investigação, tecnologia e valorização profissional. O salário que não aparece na entrega da viatura.

Durante um debate, é fácil mostrar aquilo que pode ser fotografado. A viatura. A arma. O colete. A farda. Mas existe algo que não aparece nessas cerimônias: o contracheque do policial. Os dados do levantamento apontam uma remuneração média bruta de R$ 7.832,83 para os policiais militares paraibanos, enquanto a média nacional seria de R$ 10.329,61. Entre soldados, a média indicada é de R$ 5.180,30.

E aqui precisamos fazer uma pergunta simples: uma polícia pode ser considerada plenamente valorizada apenas porque está bem equipada? É claro que não. Equipamento é fundamental. Mas quem veste a farda também precisa ser valorizado. O policial enfrenta risco, trabalha em escalas, atende ocorrências violentas e muitas vezes precisa recorrer a serviços extraordinários para melhorar a renda. Então, quando se fala em segurança pública, precisamos falar também de salário. E quando chega a aposentadoria? Existe ainda uma questão pouco discutida.

Depois de décadas de serviço, muitos policiais chegam à reserva e enfrentam uma redução significativa na renda, especialmente com a perda de parcelas vinculadas ao serviço ativo. E não é raro que profissionais experientes retornem à atividade por meio da Guarda Militar da Reserva. Não há problema algum em alguém querer continuar trabalhando. A pergunta é outra: isso é uma escolha ou, em alguns casos, uma necessidade para complementar a renda?

Adriano Lourenço