O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 colocou Lula diante de uma situação que, durante boa parte da campanha, parecia pouco provável: o presidente terminou atrás de Flávio Bolsonaro.

Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula ficou com 45,16%. A diferença foi de pouco mais de 2,2 milhões de votos. Não é uma distância que encerra uma eleição, mas é suficiente para mudar completamente a estratégia das duas campanhas.

E talvez o dado que mais mereça atenção esteja fora dos percentuais dos dois candidatos: 33,47 milhões de eleitores não compareceram às urnas. A abstenção chegou a 21,08%.

É aí que começa uma das principais perguntas do segundo turno: quem são esses eleitores e o que poderá levá-los novamente às urnas?

O Nordeste continua sendo o principal território eleitoral de Lula. O presidente venceu nos nove estados da região e alcançou seus melhores percentuais no Piauí, com quase 71%, seguido por Bahia, Maranhão, Pernambuco, Ceará, Sergipe, Paraíba e Rio Grande do Norte.

Mas a fotografia nacional mudou.

Flávio venceu em 15 estados e no Distrito Federal. Teve resultados expressivos em Roraima, Rondônia, Santa Catarina, Mato Grosso, Acre, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro. Em Minas Gerais, outro estado decisivo, também terminou à frente.

São Paulo chama atenção pelo tamanho do eleitorado. Flávio ultrapassou 12,9 milhões de votos no estado, enquanto Lula passou de 9,5 milhões. Minas Gerais também deu vantagem ao candidato do PL, assim como Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul.

O mapa mostra, portanto, que a disputa deixou de ser apenas uma questão de Nordeste contra o restante do país. Lula ainda possui uma vantagem importante em seu principal reduto, mas Flávio conseguiu transformar a direita em uma força eleitoral nacional.

E é justamente nesse cenário que Lula começa a mudar o tom.

O discurso sobre segurança pública ganhou espaço. O presidente passou a falar com maior ênfase em endurecimento contra criminosos, proteção do trabalhador, segurança e fortalecimento do sistema penitenciário.

A mudança chama atenção porque segurança pública esteve entre os temas mais explorados pela direita durante a campanha.

É legítimo perguntar se essa nova ênfase representa uma mudança programática ou também uma tentativa de responder a uma preocupação que apareceu nas urnas. A resposta, entretanto, caberá ao eleitor observar nos próximos dias: discurso de campanha é uma coisa; política pública concreta é outra.

O próprio Lula também fez uma autocrítica sobre a campanha. Depois do resultado, afirmou que foi a campanha menos organizada de sua trajetória desde 1989.

A declaração revela que o problema, pelo menos na avaliação do próprio presidente, não estaria somente nos adversários. Haveria também uma questão interna de comunicação, organização e estratégia.

E esse ponto ganha importância porque o governo tem uma dificuldade adicional: explicar aquilo que considera ter realizado e, ao mesmo tempo, apresentar uma proposta capaz de convencer quem ainda não decidiu.

Pesquisas realizadas antes do primeiro turno já mostravam uma divisão clara. Lula apresentava vantagem entre eleitores de menor renda, menor escolaridade, no Nordeste e entre católicos. Flávio tinha desempenho melhor entre eleitores de renda mais alta, no Sul e entre evangélicos.

Mas eleição não é fotografia de pesquisa. É urna.

E a urna mostrou que Flávio conseguiu avançar.

Outro dado que chama atenção está nas seções eleitorais instaladas em estabelecimentos penais. Presos provisórios têm direito ao voto porque não possuem condenação criminal definitiva. Os condenados definitivamente não votam.

Nessas seções específicas, Lula teve 72,98% dos votos válidos, contra 23,15% de Flávio. O número chama atenção, mas precisa ser tratado corretamente: não significa que toda a população carcerária brasileira tenha votado em Lula. Trata-se dos eleitores aptos a votar nas seções prisionais.

A pergunta seguinte é política: como cada candidato vai conversar com quem não votou?

A abstenção não pertence a Lula nem a Flávio. São milhões de brasileiros que, por diferentes motivos, não compareceram às urnas. Entre eles estão pessoas desinteressadas, impedidas de votar, que enfrentaram dificuldades para chegar ao local de votação ou simplesmente não se sentiram representadas.

Para Lula, recuperar parte desse eleitorado pode ser importante porque sua votação ficou concentrada em segmentos nos quais a abstenção historicamente pode pesar mais. Para Flávio, o desafio é manter a mobilização que o colocou na frente e, ao mesmo tempo, ampliar sua votação para além do eleitorado que já se identifica com a direita.

Há ainda outra disputa: os votos dos candidatos que ficaram pelo caminho.

Mais de nove milhões de votos foram destinados a outros nomes no primeiro turno. São eleitores que agora terão de escolher entre Lula e Flávio, votar em branco, anular ou, novamente, não comparecer.

E a política partidária já começou a se movimentar.

Flávio recebeu declarações de apoio de União Brasil, PP, Novo, Republicanos e Podemos, além dos apoios anunciados por Ronaldo Caiado e Romeu Zema. Mas essas adesões não significam automaticamente que todos os eleitores dessas legendas seguirão a orientação nacional. Em vários estados, os interesses locais são diferentes.

Lula, por sua vez, precisa ampliar sua capacidade de articulação e buscar setores de partidos que não estão integralmente fechados com Flávio. PSD e MDB aparecem como espaços importantes dessa disputa, embora suas decisões e posicionamentos variem conforme o estado e a liderança regional.

No segundo turno, portanto, não basta repetir o primeiro.

Lula precisa explicar por que pretende continuar governando e apresentar o que pretende fazer daqui para frente. Flávio precisa transformar a vantagem eleitoral em uma mensagem capaz de chegar aos eleitores que ainda não estão definitivamente com a direita.

A disputa também deve passar pela economia, segurança, emprego, custo de vida, saúde, corrupção, relação com o Congresso e instituições.

E existe um eleitor que talvez seja o mais importante de todos: aquele que não está apaixonado por nenhum dos dois.

Esse eleitor pode não querer escolher entre passado e passado. Pode querer saber o que cada candidato fará no futuro.

O segundo turno começa, portanto, com uma diferença pequena entre os dois candidatos, mas com desafios muito diferentes.

Lula precisa recuperar terreno onde perdeu votos e ampliar alianças.

Flávio precisa consolidar a liderança e convencer além de sua base tradicional.

E os dois terão de disputar não apenas o voto do adversário, mas a atenção de milhões de brasileiros que, no primeiro turno, simplesmente decidiram não ir às urnas.

No dia 25 de outubro, a escolha será novamente do eleitor.

E desta vez, os números do primeiro turno já deixaram um recado claro: nenhuma candidatura pode tratar como garantido o voto que ainda não está na urna.

Adriano Lourenço