O combate ao crime organizado voltou ao centro do debate internacional nesta terça-feira (22). Os Estados Unidos e outros 14 países do continente anunciaram medidas coordenadas contra 24 organizações criminosas classificadas como narcoterroristas, entre elas o Primeiro Comando da Capital, o PCC, e o Comando Vermelho. A iniciativa prevê, de acordo com as leis de cada país, bloqueio de bens, restrições de vistos e imigração e responsabilização de pessoas que ofereçam apoio material ou logístico às organizações.
O Brasil não aderiu à coalizão. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a rejeitar a classificação americana e defendeu que o enfrentamento ao crime organizado seja feito pelo próprio país, com cooperação internacional, inteligência e respeito à soberania brasileira. Mas existe uma questão que ultrapassa a disputa entre Lula e Donald Trump, direita e esquerda, governo e oposição. O brasileiro quer saber por que o crime organizado continua crescendo.
PCC e Comando Vermelho não são apenas nomes associados ao tráfico de drogas. As organizações são investigadas e apontadas em diferentes estados por atividades como tráfico, extorsão, homicídios, lavagem de dinheiro, controle territorial e outras formas de criminalidade. O próprio Estado brasileiro reconheceu a necessidade de novas ferramentas: em março deste ano entrou em vigor o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado, que criou novos crimes relacionados ao domínio social estruturado e estabeleceu mecanismos mais severos contra organizações ultraviolentas.
Então, onde está o problema?
Será que faltam leis?
Será que faltam policiais?
Será que falta investigação?
Será que falta integração entre as forças de segurança?
Ou será que o problema está na dificuldade de atingir a estrutura financeira, logística e territorial das organizações?
O próprio histórico brasileiro mostra que prender integrantes não significa necessariamente desmontar uma organização. Quando uma liderança é retirada, outras pessoas podem ocupar o espaço deixado. É justamente por isso que o combate ao crime organizado exige mais do que prisões isoladas: exige inteligência, investigação financeira, integração entre instituições, controle territorial e capacidade de impedir que a organização continue funcionando de dentro ou de fora dos presídios.
O Atlas da Violência 2025, produzido pelo Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, chama atenção para uma realidade importante: mesmo com a redução dos homicídios, as facções criminosas continuam expandindo sua atuação e redesenhando a geografia do crime no país. O estudo também destaca a importância da inteligência e da integração entre diferentes órgãos para atingir estruturas criminosas.
E há outro problema que não pode ser colocado debaixo do tapete: a violência contra a mulher.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 aponta que os dados de 2025 registraram a menor taxa de mortes violentas desde 2012, mas, ao mesmo tempo, convivem com crescimento dos feminicídios e recorde de letalidade policial. Ou seja, os números não permitem uma leitura simples de que tudo piorou ou tudo melhorou. Há avanços em determinados indicadores e problemas graves em outros.
E é justamente aí que o debate político precisa sair do discurso eleitoral.
A direita costuma defender maior rigor penal, fortalecimento das polícias e redução de benefícios para criminosos. A esquerda enfatiza políticas sociais, educação, emprego, redução da desigualdade e prevenção.
Mas o Brasil já possui programas sociais, políticas educacionais, forças policiais, Ministério Público, Judiciário, sistema penitenciário e legislação penal.
O Pé-de-Meia, por exemplo, foi criado para estimular a permanência de estudantes no ensino médio. No Distrito Federal, dados divulgados pelo Ministério da Educação apontaram queda de 24% no abandono escolar após dois anos do programa.
Então a pergunta precisa ser mais profunda.
Se existe política social, por que alguns jovens continuam sendo atraídos pelo crime?
Se existe polícia, por que as organizações continuam se reorganizando?
Se existem leis, por que ainda existem estruturas criminosas capazes de controlar territórios?
Se existem prisões, por que determinados grupos continuam operando?
E se existe Justiça, por que a população ainda convive diariamente com medo, violência e sensação de insegurança?
Não existe resposta simples.
Também seria equivocado dizer que o Estado não combate o crime. Operações policiais, investigações, bloqueios patrimoniais e prisões acontecem diariamente. Nesta semana, por exemplo, uma operação no Ceará cumpriu mandados contra suspeitos de integrar o Comando Vermelho e bloqueou cerca de R$ 70 milhões em bens e contas investigados.
O problema é saber se essas ações conseguem atingir o núcleo econômico e estrutural das organizações ou apenas substituir aqueles que foram presos.
E existe ainda uma discussão que precisa ser feita com responsabilidade: a diferença entre punir criminosos e abandonar princípios constitucionais.
O direito de defesa não foi criado para proteger o crime. Foi criado para impedir que alguém seja condenado sem o devido processo legal. A Constituição estabelece garantias individuais, mas também determina tratamento rigoroso para crimes como terrorismo, tráfico de drogas e crimes hediondos.
Portanto, o desafio não deveria ser escolher entre segurança e direitos.
O desafio é conseguir fazer as duas coisas funcionarem.
E talvez esteja aí a maior cobrança que o cidadão deve fazer aos candidatos, principalmente em um ano eleitoral.
Não basta dizer que vai combater o crime.
É preciso explicar como.
Quantos policiais?
Qual inteligência?
Qual integração?
Como atingir o dinheiro das facções?
Como impedir que presídios sejam centros de comando?
Como proteger comunidades dominadas pelo medo?
Como reduzir o recrutamento de jovens?
Como melhorar a escola?
Como criar oportunidades reais de trabalho?
E, principalmente, como medir se aquilo que foi prometido realmente funcionou?
Porque o brasileiro já ouviu muitas promessas de segurança pública.
O que falta agora é resultado.
E talvez exista uma última pergunta, ainda mais incômoda.
Se um país espera que seus jovens estudem, trabalhem, respeitem as instituições e construam uma vida dentro da legalidade, que exemplo estão oferecendo aqueles que ocupam posições de poder?
Um jovem observa a polícia.
Observa o criminoso.
Observa o professor.
Observa o político.
Observa o juiz.
Observa o empresário.
Observa os representantes que escolhemos pelo voto.
E aprende também com aquilo que vê.
Por isso, combater o crime não significa apenas prender quem comete o delito. Significa também construir um Estado capaz de demonstrar que a legalidade funciona, que o trabalho produz resultado, que a educação abre caminhos e que ocupar uma função pública exige responsabilidade.
No fim, a discussão sobre PCC, Comando Vermelho e narcoterrorismo talvez seja apenas uma parte de uma pergunta muito maior: que país estamos construindo para a próxima geração?
Adriano Lourenço
