O voto deveria ser uma escolha consciente, resultado da comparação entre ideias e da avaliação de quem já ocupou cargos públicos. No entanto, parte do eleitorado passou a tratar seus candidatos como se estivessem acima de críticas. Questionar tornou-se, para muitos, sinônimo de traição.
Enquanto a disputa entre grupos políticos domina as redes sociais, problemas que fazem parte da rotina da população continuam exigindo respostas. A segurança pública, a violência contra as mulheres, a falta de perspectivas para os jovens, as dificuldades na educação e a pressão sobre os serviços de saúde não podem ficar em segundo plano durante uma eleição.
Na saúde, por exemplo, unidades continuam enfrentando sobrecarga e pacientes aguardam consultas, exames e tratamento. Durante a pandemia da Covid-19, o país ampliou leitos e estruturas para enfrentar uma emergência. Passado aquele período, a pressão sobre parte da rede pública permaneceu e, em muitas situações, a população continua enfrentando a falta de vagas e a demora no atendimento.
O mesmo ocorre com a economia. O cidadão sente o aumento das despesas e acompanha discussões sobre dívida pública e gastos governamentais, mas esses temas nem sempre recebem a mesma atenção das disputas entre direita e esquerda. Os debates deveriam ajudar a mudar esse cenário. São oportunidades para que candidatos apresentem propostas, respondam a questionamentos e expliquem como pretendem enfrentar os problemas do país. A ausência de candidatos desses encontros também precisa ser avaliada pelo eleitor.
É nesse ambiente que nomes fora da política tradicional começam a chamar atenção. Augusto Cury, conhecido por sua atuação como psiquiatra e escritor, passou a receber maior exposição ao entrar na disputa presidencial. Sua candidatura não deve ser tratada como garantia de mudança, assim como nenhuma trajetória política, por si só, garante competência administrativa. Todos precisam ser questionados e avaliados pelas propostas que apresentam.
O interesse por novos nomes, porém, pode revelar o desgaste de uma disputa concentrada sempre nos mesmos grupos. Mais do que procurar um salvador ou defender um político de forma incondicional, o eleitor precisa recuperar o direito — e a obrigação — de perguntar, comparar e cobrar. O político eleito não recebe um voto de gratidão. Recebe uma responsabilidade. Saúde, educação, segurança e outros serviços públicos não são favores prestados à população, mas deveres de quem administra os recursos públicos.
O Brasil precisa de mudanças, mas elas não dependem apenas de novos candidatos ou novos discursos. Também dependem de uma mudança na postura do eleitor. Votar é escolher. Depois da eleição, é acompanhar e cobrar. Quando o voto se transforma em devoção, o debate perde espaço e a política deixa de servir ao cidadão.
Adriano Lourenço
