
Levantamentos recentes mostram que valor do metro quadrado em João Pessoa praticamente explodiu. Foto: Arquivo
A rotina de quem vive em João Pessoa já não lembra a tranquilidade de poucos anos atrás. De acordo com uma extensa reportagem da BBC News Brasil, a capital paraibana passou por uma verdadeira revolução silenciosa nos preços, impulsionada pela chegada de um novo perfil de morador: jovens que fogem de grandes centros em busca de qualidade de vida, mas que também aceleraram a especulação imobiliária e o custo de vida local.
Levantamentos recentes mostram que o valor do metro quadrado na cidade praticamente explodiu. Enquanto em 2019 o preço médio girava em torno de R$ 4,5 mil, no início de 2026 esse valor já chega a R$ 8 mil. É o que aponta o Índice FipeZap, que registrou em João Pessoa a segunda maior alta entre todas as capitais do país no último ano — atrás apenas de Salvador.
Moradores antigos e novos sentem no bolso a diferença. Um exemplo citado pela reportagem é o preço do coco verde, que saiu de R$ 2, em 2022, para até R$ 7 atualmente. O mercado, os restaurantes e os aluguéis também seguram a mesma curva de alta. Em bairros valorizados da orla, como Cabo Branco e Tambaú, o metro quadrado já ultrapassa os R$ 12 mil.
O fenômeno, segundo a BBC, tem nome e destino: profissionais jovens que trabalham remotamente, muitos vindo de São Paulo e outras capitais, escolheram a Paraíba para “desacelerar”, mas acabaram turbinando a demanda. A cidade passou a atrair não apenas aposentados, mas uma geração disposta a investir e morar. Com mais gente chegando, o estoque de imóveis encolheu e os preços dispararam — inclusive nos aluguéis, que tiveram reajustes de até 30% em determinadas regiões.
O crescimento populacional escancara o problema. Dados do IBGE mostram que João Pessoa foi a quinta capital que mais ganhou habitantes no país, com um acréscimo de 110 mil pessoas em 12 anos. O trânsito, antes um ponto leve, já começa a incomodar: um trajeto de cinco minutos pode levar meia hora nos horários de pico. Especialistas ouvidos pela emissora britânica afirmam que o modelo de expansão da cidade tem sido guiado pelo mercado imobiliário, com pouca participação popular nas decisões urbanas. Incorporadoras compram terrenos para formar “bancos de terra”, segurando a oferta e pressionando os preços. Como resultado, a cidade enfrenta um déficit habitacional de cerca de 50 mil moradias, e muitas famílias comprometem mais de 30% da renda apenas com aluguel.
Outro ponto crítico é a infraestrutura: o saneamento básico não acompanhou o boom imobiliário. Cerca de 72% do esgoto é tratado, mas o restante tem destino incerto, afetando rios, praias e até o turismo. Ambientistas alertam que o crescimento desordenado pode levar a danos ambientais irreversíveis. A conclusão da reportagem é que João Pessoa vive um momento de transformação intensa, mas os custos — financeiros, sociais e ambientais — estão subindo num ritmo que a cidade ainda não conseguiu administrar.
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