
O transporte rodoviário segue como elo essencial da logística nordestina. Foto: Reprodução / Internet
A transformação da logística no Nordeste começa a criar uma nova disputa por cargas, investimentos e centros de distribuição — e a Paraíba pode ocupar uma posição estratégica nesse movimento. A expansão da cabotagem, os investimentos em infraestrutura portuária e a busca das empresas por rotas mais eficientes colocam o Porto de Cabedelo diante de uma oportunidade de ampliar sua participação na movimentação regional.
O cenário foi discutido durante a Multimodal Nordeste 2026, realizada no Recife, onde executivos do setor apontaram que a combinação entre portos, rodovias, ferrovias, armazenagem e tecnologia será determinante para reduzir custos e aumentar a competitividade das empresas.
Cabedelo ganha estrutura – Na Paraíba, o Porto de Cabedelo passa por uma fase de ampliação de sua infraestrutura. Em março, o Ministério dos Portos e Aeroportos e a Companhia Docas da Paraíba formalizaram investimentos de R$ 105 milhões para obras de dragagem e ampliação do molhe.
Os recursos incluem R$ 40,5 milhões para a ampliação do molhe, com o objetivo de aumentar a estabilidade do canal e reduzir problemas de assoreamento, e R$ 64,5 milhões para a dragagem, incluindo a ampliação da bacia de evolução e o alargamento do canal. O Estado também prevê outros investimentos na estrutura portuária, incluindo expansão de áreas de armazenagem, melhorias no cais, segurança e implantação de pátio de regulação de caminhões.
Cabotagem ganha espaço – A expansão da infraestrutura ocorre em um momento de maior atenção à cabotagem, modalidade que conecta os portos brasileiros pela navegação costeira e pode complementar o transporte rodoviário. Nos dois primeiros meses de 2026, a cabotagem movimentou 38,4 milhões de toneladas de cargas entre portos brasileiros, segundo dados da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) divulgados pelo Ministério dos Portos e Aeroportos.
O governo federal destaca que o modal funciona de forma integrada a rodovias, ferrovias e hidrovias, permitindo conectar áreas produtoras, centros consumidores e estruturas de distribuição. Para a Paraíba, esse movimento aumenta a importância de uma estrutura portuária capaz de receber, armazenar e redistribuir cargas com eficiência.
Empresas mudam suas rotas – A mudança não depende apenas de obras. Empresas também começam a rever suas estratégias de distribuição em busca de menor custo e maior proximidade dos mercados consumidores. Um exemplo citado durante a Multimodal Nordeste foi o uso do Porto de Suape, em Pernambuco, por empresas que antes concentravam importações em portos do Sul e Sudeste. A lógica é reduzir o percurso terrestre das mercadorias destinadas ao Norte e Nordeste.
A expansão de Suape também mostra como a competição logística regional está se tornando mais sofisticada. O complexo pernambucano vem atraindo novos centros de distribuição e operações voltadas ao atendimento do mercado nordestino. A Maersk, por exemplo, ampliou sua estrutura com um centro de distribuição de mais de 10 mil metros quadrados em Cabo de Santo Agostinho.
Onde entra a Paraíba – O desafio para a Paraíba é transformar a modernização do Porto de Cabedelo em capacidade efetiva de atrair novas cargas e negócios. Isso envolve não apenas o porto, mas toda a cadeia que chega até ele: rodovias, armazenagem, transporte de última milha, tecnologia, distribuição e conexão com outros modais.
A própria Companhia Docas da Paraíba avaliou recentemente, em reportagem ao Paraíba Business, que o terminal tem espaço para ampliar sua participação nas exportações e atender novos fluxos logísticos, especialmente diante de mudanças nas rotas comerciais.
Disputa por eficiência – A reforma tributária tende a acrescentar uma nova variável à escolha das empresas. Com a redução gradual da importância dos incentivos fiscais como fator de localização, proximidade dos mercados consumidores e custo logístico podem ganhar peso nas decisões sobre onde instalar centros de distribuição e operações industriais.
Nesse cenário, Pernambuco parte de uma posição privilegiada pela localização de Suape e pela concentração de estruturas logísticas. A Paraíba, por sua vez, tem o desafio de aproveitar a modernização de Cabedelo para se inserir nessa rede regional, em vez de apenas funcionar como ponto de passagem de cargas.
Uma oportunidade regional – A transformação da logística nordestina não significa que um único porto ou estado concentrará todas as operações. A tendência é de uma rede mais integrada, na qual cada estrutura desempenhe funções complementares.
Para a Paraíba, a oportunidade está em fazer de Cabedelo uma peça mais relevante dessa rede, aproveitando investimentos já contratados e a expansão da cabotagem para atrair cargas, serviços logísticos e novos negócios. A disputa, portanto, não será apenas por infraestrutura. Será por eficiência, escala, conexão e capacidade de oferecer às empresas uma alternativa competitiva para acessar os mercados do Nordeste.
Paraíba Business
