O teatro experimental universitário com estudantes da Faculdade de Direito da UFPB, em 1985, não se limitou à encenação da peça O Santo Inquérito, de Dias Gomes; a academia vivia a expectativa do fim do regime ditatorial e um frisson libertário que agitava não apenas o Movimento Estudantil, mas essencialmente, universitários que buscavam na música e no teatro canais de expressão dos impulsos mais reprimidos. Mais uma vez, o Grupo de Teatro da Faculdade de Direito, irrequieto e nada sutil, volta ao palco uma nova peça: “Uma Casa Brasileira Com Certeza”, do dramaturgo carioca Wilson Sayão sobre as agruras sexuais e morais de casais da Zona Sul do Rio.

Sempre achei que a Marcha da Família com Deus pela Liberdade que ganhou as ruas e praças do Brasil em 19 de março de 1964, haveria de se repetir sempre. Incrível porque esta semana mesmo ela está de volta, desta feita tendo como pretexto as medidas restritivas, pedindo volta de cultos religiosos presenciais, reabertura de comércio. A essência do fascismo cristão que num futuro não muito distante haverá de fracionar de vez o país.

Mas voltemos ao teatro. Uma Casa Brasileira, Com Certeza, o título remete à uma canção portuguesa, mas a peça de Wilson Sayão, escrita em 1974, mostra um casal confinado num apartamento de classe média, sem opções de lazer ou distração, filosofando sobre a vida e a morte, broxadas, fetiches sexuais e tudo o mais. Atual, Não?

Pois é. Em 1985 o brasileiro não enfrentava isolamento social por conta de um vírus, mas por decorrência de outra praga: o fascismo, o amor à pátria e a moral caolha da família cristã brasileira. Tudo isso foi encenado, verbalizado por estudantes de Direito, numa narrativa nada conservadora. E havia estudantes conservadores no elenco, é sempre bom lembrar.

Mas quando o teatro exorciza demônios da sexualidade, repressão familiar, comportamentos, não há moral ou regime conservador que resista. Os fetiches sexuais como transar com alguém dominado e algemado à cama, o prazer atonal como mote cênico, tudo explodia no palco com cenários em verde e amarelo, com a Bandeira Brasileira o tempo todo servindo de pano de fundo para orgasmos e brochadas, contextualizava a moral conservadora da família brasileira. Não esse padrão nazista que o a juventude brasileira e a classe média vivem atualmente, mas o tacão religioso cristão e sua moral hipócrita, que também não deixam de ser perigoso e draconiano, para usar a expressão bem jurídica que usávamos durante a montagem.

Mais uma vez, o elenco de estudantes da Faculdade de Direito, contando com atores convidados Marcos Careca, Omar Brito e Laerte Fiririu que subiram ao palco do teatro Lima Penante, do Núcleo de Teatro da UFPB com a estudantada. Mais uma vez os acadêmicos de Direito, Ramaynna Lira, Valéria Guerra, Isabela Costa, Amaury Costa e J. Barreto subiam ao palcos sob a direção de João Costa. Iluminação de João Batista.

A encenação de Uma Casa Brasileira, Com Certeza, foi possível devido às ações de extensão da Pró-Reitoria Para Assuntos Comunitários da UFPB, e do Centro de Ciências Jurídicas. Em 1984/85 a Ditadura Militar e seus acólitos viviam sua agonia, a avalanche liberal de costumes e da liberdade de expressão moviam a todos, inclusive estudantes do Curso de Direito.

João Costa